sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Deitada, inerte e em paz...


A sala estava escura, mas não o suficiente... Deborah, levantou-se e baixou os estores até extinguir o último pedaço de luz que desafiava a escuridão. Voltou, às apalpadelas, para o sofá e fechou os olhos. 
Idiota, pensou para si. No escuro, manter os olhos fechados ou abertos não faria a mínima diferença. Contudo, Optou por fechar os olhos, sentia-se melhor assim.
Pegou no comando e ligou a música. Deixou-se envolver pela melodia e permitiu-se viajar. Deitada, inerte e em paz. 
Por vezes, sentia necessidade de afastar-se do mundo e mergulhar no seu inconsciente, na sua alma.
A música era o meio de transporte para o outro lado. A música era das poucas coisas que lhe  permitia desacelerar o pensamento e desapegar-se das preocupações mundanas e rotineiras. Por momentos, estava em paz consigo mesma. Entendeu as suas aflições, receios e sonhos. Afastou o ruído de fundo e conseguiu olhar profundamente para dentro de si mesma. Afinal, não se tinha perdido. Afinal, a Deborah ainda ali estava. A sua essência mantinha-se a mesma. Deitada, inerte e em paz.
Assim permaneceu até o CD acabar. Respirou fundo, abriu os olhos e levantou-se lentamente como que ganhando noção do seu estado físico. 
Abriu os estores e acendeu a luz. Dirigiu-se para a cozinha e começou a preparar a lancheira do filhote.  A rotina diária, afinal de contas, ainda estava a começar. 

Texto: Adelaide Miranda, 29 Setembro 2017
Imagem: Trigger Image

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