PROLÓGO
A viagem de avião
tinha finalmente terminado. Assim que as rodas pousaram no chão e o avião
finalmente parou, aquela sensação de estar numa pista de corrida em velocidade
máxima com os olhos vendados e com o estômago a querer sair pela boca cessou. O
meu coração ainda estava descompassado, mas mais calmo. Afinal de contas tinha
sobrevivido. O medo de viajar de avião era coisa que dificilmente eu iria
perder. Fizesse as mil viagens que fizesse, o facto de a minha vida estar nas
mão de um piloto que eu nunca vi, nem mais magro nem mais gordo, e não ter o
mínimo de controlo sobre o voo era algo que nunca me iria permitir relaxar
durante uma viagem de avião. Mas aterrámos. Peguei na minha mala e aguardei
pacientemente que abrissem as portas para poder sair dali. À minha volta a
azáfama da aterragem, a preocupação de não deixar nada para trás, o nervosismo
e a ansiedade tomavam conta dos passageiros. Parece que finalmente podiam
respirar.
Do avião até ao
controlo de passaportes pareceu uma segunda viagem. Corredores e mais
corredores, curvas e contra curvas, até chegarmos à sala ampla repleta de
seguranças, polícias e pessoas de
diferentes culturas e credos. O controlo de passaportes sempre me fez lembrar a
passagem da Bíblia sobre a Torre de Babel, várias línguas e vários países
representados num espaço de quinhentos metros quadrados, ou mais. O agente da imigração olhou-me nos olhos, olhou para o cartão do
cidadão e novamente para os meus olhos, como que a confirmar que eu era
realmente quem dizia que eu era. Perguntou-me brevemente de onde eu vinha, e eu
respondi que vinha de Dublin. Respondi em inglês, obviamente, e ele surpreendeu-se
com o meu sotaque impecável ao olhar para o cartão de cidadão português. Olhou-me
nos olhos uma vez mais e entregou-me o meu documento de identificação como que
a dar-me permissão de entrar no seu país.
Segui as direções para a recolha de bagagens e fiquei ansiosamente à
espera da minha malinha, que continha apenas umas peças de roupa. Nem sei
porque me dei ao trabalho de a despachar, teria poupado tempo se tivesse apenas
atirado umas quantas peças para a minha mala à tircolo tiracolo. Mas também
pressa do de quê? E para quê? Não havia necessidade de correr para as ruas de
Londres, uma vez que já tinha visitado todos os locais que os turistas têm por
obrigação de assinalar no roteiro. Provavelmente, a minha irmã estaria à minha
espera na zona de chegada e iriamos iríamos direto para casa da minha mãe onde
uma comidinha quente nos esperava, certamente.
Avisto a minha irmã nas chegadas e, controladamente, dirijo-me até ela.
O sorriso contagiante e a alegria genuína por me ver apertou-me o coração
daquele jeito que só quem tem irmãos é que consegue descrever. Abracei-a com
genuína saudade e felicidade e deixámo-nos estar assim por um pouquinho. Nunca
fomos de mostrar muito afeto, muito menos publicamente. Sempre achámos algo
embaraçante, sentir todos os olhos em nós. Como os animais no zoo, ali expostos
sem ter onde se esconder.
No meio deste abraço, ouço uma voz que imediatamente reconheço.
Congelei ali mesmo, naquele espaço. Deixei-me estar por instantes com medo de
virar a cabeça e ver que aquela voz era mesmo de quem eu pensava que fosse.
Quantos anos se tinham passado? Seria possível que um acaso do destino nos
tivesse juntado na sala de chegadas do aeroporto do país que há tantos anos
atrás nos tinha separado? Não podia ser. Estagnei, com o coração a bater
descompassado, com as pernas a tremer. As mãos suadas, um aperto no estômago e
no peito. Como podia a possibilidade, a mera possibilidade, de o encontrar ali deixar-me
assim? Como podia o som de uma voz paralisar-me e trazer de repente emoções que
há muito se tinham perdido em mim? Saí do transe e ganhei forças para me virar.
Procurei com os olhos com medo do que fosse encontrar.
E ali estava, a sorrir. A acenar para alguém que havia acabado de
chegar. O sorriso que sempre lhe foi característico estampado na cara. Não
tinha mudado nada. Continuava igualzinho ou, se calhar, até mais bonito. A
questão de quem poderia estar a causar aquele sorriso ficou a rodar na minha
cabeça. Incrível como em segundos, o sentimento de ciúme apoderou-se de mim,
por uma pessoa que não era de modo nenhum, minha. Os ciúmes transformaram-se em
medo, como se ali naquele momento fosse realmente o fim de algo que já tinha
terminado há muito tempo. E os nossos olhares cruzaram-se. Ficou também
paralisado, boquiaberto a olhar para mim como se tivesse visto um fantasma.
Reparei que abanou ligeiramente a cabeça, talvez numa tentativa de que o
fantasma desaparecesse.
Senti uma enorme sensação de alívio quando reconheci a irmã dele. Sorri
por dentro e uma esperança de adolescente apoderou-se de mim. O fim poderia
afinal não ser o fim. Quem sabe, o destino uniu-nos ali?
Sempre ouvi dizer que o que tem de ser tem muita força. Que o destino
arranja sempre uma maneira de juntar as pessoas que realmente se amam de
verdade. Durante algum tempo acreditei nisto mas, com o passar dos anos, tive que
forçosamente deixar de acreditar. Comigo, o destino parecia nunca resultar.
Durante anos, procurei-o em todos os locais onde fui, em todas as festas, em
todos os autocarros, em todos os metros. Andei sempre com a cabeça erguida à
procura. Mas, com o passar do tempo, dei por mim a deixar de procurar. Com o
passar do tempo aceitei que o que tínhamos vivido não tinha passado de um
sonho. Afinal de contas, eu não tinha o direito de ser feliz, o amor nunca iria
resultar para mim… No último dia que estivemos juntos apaguei todos os seus
contactos. Com lágrimas nos olhos, apaguei os números de telefone dele e os
respetivos e-mails. Seria melhor assim. Seria mais fácil, assim. As últimas
palavras dele para mim foram: “O destino tem muita força. O que tiver que ser
será. Se um dia nos voltarmos a encontrar é porque estamos destinados um para o
outro.”
A minha irmã abanou-me. Saí do transe. Ele olhou para mim, agarrou a
irmã pela mão e dirigiu-se até mim.
O meu coração parou de bater por segundos, as pernas perderam as forças
e tive que me agarrar à minha irmã para não cair. À medida que ele se
aproximava eu pedia a Deus as forças necessárias para não perder a voz, pedia a
Deus que se fosse um sonho me acordasse antes de ele chegar ao meu lado. E
quanto mais ele se aproximava, a certeza de que nunca tinha deixado de o amar
apoderou-se de mim. Eu sempre soube. Sempre soube no meu íntimo que o meu
sentimento seria para sempre. Só fiquei na dúvida se ele sentia o mesmo por
mim…
Aceda aos primeiros 5 capítulos:
https://www.dropbox.com/s/orzl6mfulogjzdj/Reflexos%20da%20Lua-%20Excerto%205%20Capitulos.pdf?dl=0
Contactos:
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