sábado, 24 de setembro de 2016

Fome de ti...



Hoje acordei com fome de ti. Aninhei-me nos teus braços e tentei fundir-me a ti. Queria ficar assim, o dia todo. Esquecer o mundo e alimentar-me do teu calor, do teu cheiro. Há dias em que só me apetece perder-me em ti, e ficar perdida indefinidamente. Que ninguém me procure, por favor. Deixem-me ali perdida no teu ser. Abriste os olhos, olhaste para mim e sorriste. Apertaste-me mais contra ti. Ah!.... Oh Vida! Hoje acordaste também com fome de mim. Deixemo-nos ficar aqui enroscados e perdidos um no outro. Que o mundo não nos interrompa, por favor...

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Adelaide Miranda, 24 Setembro 2015




Para sempre...


Para sempre... Até que a morte nos separe. Na saúde e na doença... Na riqueza e na pobreza. Na alegria e na tristeza. Até ao fim dos meus dias. Para sempre... É assim que eternizamos o nosso amor perante Deus, perante a família e perante os amigos. Assim juramos enquanto trocamos alianças que representam a nossa união. Planeamos o dia na perfeição, por vezes com um ano de antecedência, ansiosos de nos unirmos para sempre. Ali, no dia do nosso casamento. Porém... O dia da nossa união, não é o dia do nosso casamento. Para mim foi o dia em que a minha alma se cruzou com a tua e nunca mais a conseguiu esquecer. O dia em que a minha alma se cruzou com a tua e fez penitência até te pertencer. O dia em que a minha alma se cruzou com a tua e passou a ter fome e sede de ti apenas. Foi nesse dia. No dia em que olhei para ti e reconheci-te de outras vidas. Em que a minha alma sorriu e encontrou o pedaço que lhe faltava. O dia da nossa união foi no dia em que te conheci. O dia em que as pernas me tremeram e o coração bateu descompassado só por te ver sorrir. O dia em que desejei ser a única mulher no planeta para que tivesses olhos só para mim. O dia da nossa união foi assim.   Começou como um dia qualquer e terminou como o primeiro dia do resto da minha vida. O dia da nossa união não foi planeado com antecedência, nem programado ao minuto. O dia da nossa união simplesmente aconteceu. Foi assim naquele segundo, naquele momento em que eu olhei para ti, tu olhastes para mim e as nossas almas sorriram. Foi lindo esse dia, inesperado, mágico. Sim, foi esse dia. O dia em que nossas almas juraram para sempre... até que a morte nos separe outra vez... Só os dois, com um olhar, com um sorriso, com um pousar de olhos... ali, assim eternizamos o nosso amor.. Para sempre!

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Adelaide Miranda, 23 Setembro 2015


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Despimento

Despimento

Está frio...
Sinto um arrepio na pele.
As lágrimas que verto
congelam à saída.
Abraço-me mas
não me aqueço.
Não consigo...
Envolta em mantas,
à beira da lareira,
com o carvão em brasa.
Mas...
Está frio...
Sinto o sangue a gelar
nas veias.
Os dedos inertes,
sem cor, sem vida.
Esfrego as mãos mas
não as sinto.
Não consigo...
À minha volta
os outros dançam,
riem e cantam.
Mas...
Está frio...
Sinto o coração
a deixar de bater.
A respiração cessa
lentamente.
Tento chamar por ti...
Não consigo...
Partistes com um 
até nunca.
Levastes tudo o que
me aquece contigo.
Aqui vestida de tecido,
despida de ti...
Está frio...
Queria viver,
mas...
Não consigo!

Adelaide Miranda, 10/07/2015

Photo from internet

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Reflexos da Lua - Primeiros Capitulos


PROLÓGO

     

A viagem de avião tinha finalmente terminado. Assim que as rodas pousaram no chão e o avião finalmente parou, aquela sensação de estar numa pista de corrida em velocidade máxima com os olhos vendados e com o estômago a querer sair pela boca cessou. O meu coração ainda estava descompassado, mas mais calmo. Afinal de contas tinha sobrevivido. O medo de viajar de avião era coisa que dificilmente eu iria perder. Fizesse as mil viagens que fizesse, o facto de a minha vida estar nas mão de um piloto que eu nunca vi, nem mais magro nem mais gordo, e não ter o mínimo de controlo sobre o voo era algo que nunca me iria permitir relaxar durante uma viagem de avião. Mas aterrámos. Peguei na minha mala e aguardei pacientemente que abrissem as portas para poder sair dali. À minha volta a azáfama da aterragem, a preocupação de não deixar nada para trás, o nervosismo e a ansiedade tomavam conta dos passageiros. Parece que finalmente podiam respirar.

Do avião até ao controlo de passaportes pareceu uma segunda viagem. Corredores e mais corredores, curvas e contra curvas, até chegarmos à sala ampla repleta de seguranças,  polícias e pessoas de diferentes culturas e credos. O controlo de passaportes sempre me fez lembrar a passagem da Bíblia sobre a Torre de Babel, várias línguas e vários países representados num espaço de quinhentos metros quadrados, ou mais. O agente da imigração olhou-me nos olhos, olhou para o cartão do cidadão e novamente para os meus olhos, como que a confirmar que eu era realmente quem dizia que eu era. Perguntou-me brevemente de onde eu vinha, e eu respondi que vinha de Dublin. Respondi em inglês, obviamente, e ele surpreendeu-se com o meu sotaque impecável ao olhar para o cartão de cidadão português. Olhou-me nos olhos uma vez mais e entregou-me o meu documento de identificação como que a dar-me permissão de entrar no seu país.

Segui as direções para a recolha de bagagens e fiquei ansiosamente à espera da minha malinha, que continha apenas umas peças de roupa. Nem sei porque me dei ao trabalho de a despachar, teria poupado tempo se tivesse apenas atirado umas quantas peças para a minha mala à tircolo tiracolo. Mas também pressa do de quê? E para quê? Não havia necessidade de correr para as ruas de Londres, uma vez que já tinha visitado todos os locais que os turistas têm por obrigação de assinalar no roteiro. Provavelmente, a minha irmã estaria à minha espera na zona de chegada e iriamos iríamos direto para casa da minha mãe onde uma comidinha quente nos esperava, certamente.

Avisto a minha irmã nas chegadas e, controladamente, dirijo-me até ela. O sorriso contagiante e a alegria genuína por me ver apertou-me o coração daquele jeito que só quem tem irmãos é que consegue descrever. Abracei-a com genuína saudade e felicidade e deixámo-nos estar assim por um pouquinho. Nunca fomos de mostrar muito afeto, muito menos publicamente. Sempre achámos algo embaraçante, sentir todos os olhos em nós. Como os animais no zoo, ali expostos sem ter onde se esconder.

No meio deste abraço, ouço uma voz que imediatamente reconheço. Congelei ali mesmo, naquele espaço. Deixei-me estar por instantes com medo de virar a cabeça e ver que aquela voz era mesmo de quem eu pensava que fosse. Quantos anos se tinham passado? Seria possível que um acaso do destino nos tivesse juntado na sala de chegadas do aeroporto do país que há tantos anos atrás nos tinha separado? Não podia ser. Estagnei, com o coração a bater descompassado, com as pernas a tremer. As mãos suadas, um aperto no estômago e no peito. Como podia a possibilidade, a mera possibilidade, de o encontrar ali deixar-me assim? Como podia o som de uma voz paralisar-me e trazer de repente emoções que há muito se tinham perdido em mim? Saí do transe e ganhei forças para me virar. Procurei com os olhos com medo do que fosse encontrar.

E ali estava, a sorrir. A acenar para alguém que havia acabado de chegar. O sorriso que sempre lhe foi característico estampado na cara. Não tinha mudado nada. Continuava igualzinho ou, se calhar, até mais bonito. A questão de quem poderia estar a causar aquele sorriso ficou a rodar na minha cabeça. Incrível como em segundos, o sentimento de ciúme apoderou-se de mim, por uma pessoa que não era de modo nenhum, minha. Os ciúmes transformaram-se em medo, como se ali naquele momento fosse realmente o fim de algo que já tinha terminado há muito tempo. E os nossos olhares cruzaram-se. Ficou também paralisado, boquiaberto a olhar para mim como se tivesse visto um fantasma. Reparei que abanou ligeiramente a cabeça, talvez numa tentativa de que o fantasma desaparecesse.

Senti uma enorme sensação de alívio quando reconheci a irmã dele. Sorri por dentro e uma esperança de adolescente apoderou-se de mim. O fim poderia afinal não ser o fim. Quem sabe, o destino uniu-nos ali?

Sempre ouvi dizer que o que tem de ser tem muita força. Que o destino arranja sempre uma maneira de juntar as pessoas que realmente se amam de verdade. Durante algum tempo acreditei nisto mas, com o passar dos anos, tive que forçosamente deixar de acreditar. Comigo, o destino parecia nunca resultar. Durante anos, procurei-o em todos os locais onde fui, em todas as festas, em todos os autocarros, em todos os metros. Andei sempre com a cabeça erguida à procura. Mas, com o passar do tempo, dei por mim a deixar de procurar. Com o passar do tempo aceitei que o que tínhamos vivido não tinha passado de um sonho. Afinal de contas, eu não tinha o direito de ser feliz, o amor nunca iria resultar para mim… No último dia que estivemos juntos apaguei todos os seus contactos. Com lágrimas nos olhos, apaguei os números de telefone dele e os respetivos e-mails. Seria melhor assim. Seria mais fácil, assim. As últimas palavras dele para mim foram: “O destino tem muita força. O que tiver que ser será. Se um dia nos voltarmos a encontrar é porque estamos destinados um para o outro.”

A minha irmã abanou-me. Saí do transe. Ele olhou para mim, agarrou a irmã pela mão e dirigiu-se até mim.

O meu coração parou de bater por segundos, as pernas perderam as forças e tive que me agarrar à minha irmã para não cair. À medida que ele se aproximava eu pedia a Deus as forças necessárias para não perder a voz, pedia a Deus que se fosse um sonho me acordasse antes de ele chegar ao meu lado. E quanto mais ele se aproximava, a certeza de que nunca tinha deixado de o amar apoderou-se de mim. Eu sempre soube. Sempre soube no meu íntimo que o meu sentimento seria para sempre. Só fiquei na dúvida se ele sentia o mesmo por mim…


Aceda aos primeiros 5 capítulos:
https://www.dropbox.com/s/orzl6mfulogjzdj/Reflexos%20da%20Lua-%20Excerto%205%20Capitulos.pdf?dl=0

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Falar de Amor...

Falar de amor...

Falar de amor... É sempre complicado.
É complicado falar de algo que não tem uma definição concreta e que varia de indivíduo para indivíduo.
Falar de amor... É sempre complicado.
É complicado falar de algo que não tem forma nem dimensão.
Falar de amor... É sempre complicado.
É complicado falar de algo que causa tanta alegria e por vezes tanta dor.
Falar de amor... É sempre complicado.
É complicado falar de algo que nos vicia, que nos torna dependentes.
Falar de amor... É sempre complicado.
É complicado falar de algo que existe numa forma que não é para ser falada mas sentida.
Falar de amor... É sempre complicado.
O amor não é para ser falado. O amor é para ver vivido.

Adelaide Miranda, 21/09/2016


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Como amar com medidas?

Dizem-me que amo demais...
Dizem-me que mostro que amo demais...
Dizem-me que devia amar menos, ou mostrar que amo menos.
Mas como pode alguém amar menos?
Como pode alguém medir a quantidade de amor?
Existe alguma forma de controlar a quantidade de amor que se tem para dar?
Existe um termómetro de amor? Ou um controlador de nível de amor?
Existe alguma válvula de fecho quando se atinge um determinado nível?
E quem determina o nível?
Quem sabe dizer quando se ama demais  ou de menos?
Tantas perguntas sem resposta...
Tantas perguntas que nem o meu coração sabe responder.
Não existe medida de amor.
Ama-se e pronto.
Não sei se amo demais ou de menos.
Amo, e amo, e mostro.
Não sei esconder o que sinto.
Amo, e amo, e não me envergonho de amar.
Dizem que amo demais...
Não sei dizer, não tenho medidor de nível de amor.
O amor não se mede, sente-se.
Se amo demais ou de menos... Não sei.
Não me importa.
Amo e pronto!

Adelaide Miranda, 02/09/2016
Foto retirada da internet

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Amor de Amor - Um Conto



O que acontece quando duas almas se amam e temem que a afirnação pública desse sentimento o estrague?
Consegue-se amar uma vida inteira sem o falar abertamente?

Amor de Amor


 

I

 

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. Tão simples quanto isso. Ela amava-o e ele era o seu amor. Aquele amor… O Amor, sabes?

Aquele amor que se quer escrever com letra grande: Amor!

Aquele amor que se quer gritar alto, bem alto, com todas as forças dos nossos pulmões: AMOR!

Aquele amor que dá um friozinho na barriga e uma volta ao estomâgo só de se pensar que se pode perder. Aquele amor… O Amor, sabes?


 
II

 

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. Só era uma pena que ele não o soubesse. Eram amigos há tantos anos. Já partilharam tantos momentos. Tantas e tantas coisas viveram juntos.

Mas ele não sabia que era o seu amor. Tantas foram as noites em claro a falar dos planos para o futuro, a planear as suas vidas em separado. Tantas foram as vezes que na brincadeira ela propôs que as vivessem em conjunto. E ele sempre no seu jeito de menino sorria e dizia que nunca se iriam separar. Amava-a, como a uma irmã. Aquela que nunca teve…

E ela respondia sempre com a voz sumida: “Eu amo-te claro, és tudo para mim…”. E por segundos sentavam-se ambos em silêncio a contemplar as estrelas, até que ele cortava o silêncio com uma nova história ou piada.

Tantas foram as vezes que ela quis perguntar o que ele pensava naqueles momentos. Será que secretamente ele também a amava? Seria pedir demais? Seria sonhar alto demais? Mas estava grata. Já partilharam tantos momentos. Tantas e tantas coisas viveram juntos.


 
III

 

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E perdia-se na intensidade do seu olhar. Deixava-se ir no espelho da sua alma. Transportava-se para dentro do seu ser.

O mundo através dos seus olhos valia a pena ser vivido. Os obstáculos valiam a pena de ser ultrapassados. Os sonhos valiam a pena ser sonhados. A felicidade ganhava uma maior intensidade. Não existiam problemas, só soluções. Tudo fazia mais sentido quando visto pelos seus olhos.

É tão bom amar assim. É tão bom amar deste jeito. Daquele jeito em que nos sentimos seguras. Daquele jeito em que acordamos a sorrir e nos deitamos a sorrir. Daquele jeito em que nos apanhamos a sonhar acordadas. Daquele jeito que mesmo sem música nos dá vontade para dançar. Amar sem questões. Amar só por amar.

E ela amava-o assim. Tão forte, tão profundo. De uma forma até difícil de explicar. De uma forma que não havia nada para cobrar. De uma forma que bastava estar ali, só pertinho dele. Juntinho. A falar de coisas sérias ou de baboseiras. Ali… juntinho. Que forma tão linda de amar. E por amá-lo tanto assim, deixava-se ir no espelho da sua alma. Transportava-se para dentro do seu ser.


 
IV

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E guardava em sua memória todas as suas feições. E o contorno do seu rosto. Memorizava cada nova linha de expressão. Fechava os olhos e conseguia desenhá-lo. Esculpi-lo com olhos vendados. Encontrá-lo no meio de uma multidão. Reconhecia a sua respiração. Dançava ao ritmo do seu coração.

Mas como pode alguém amar assim sem ninguém o saber? Mantinha a sua paixão em segredo. E quando perguntavam quando iria arranjar namorado, respondia num tom apressado que agora era tempo de estudar. Tempo de organizar a vida. Tempo de se tornar efetiva no trabalho. Tempo de apostar na carreira. E o tempo sendo tempo, sempre a passar. Mas quem precisa de namorar quando passa toda a sua vida a amar?

Das namoradas que ele teve, perdeu a conta. E como bela confidente arranjava sempre um defeito. “Aquela é feia. Esta fala muito. Aquela é muito baixa. Esta nunca fala. Aquela está sempre grudada em ti. Esta nunca tem tempo para ti.” E quando ele reclamava e perguntava como teria de ser a sua namorada para que ela a aprovasse, ela respondia num tom de voz sumido: “Olha tem de ser assim como eu. Parecida comigo. Tem de estar sempre junto de ti. Tem de te apoiar. Tem de te chamar à razão. Basicamente tem de te amar. Assim como eu!”. Ele sorria e dizia que assim nunca ia casar, porque ela era única…

Sim ela era única. Era provavelmente a única que o amava pelo que ele foi, pelo que ele era, pelo que ele algum dia seria. Ela era provavelmente a única que o encontrava no meio da multidão, que reconhecia a sua respiração… Dançava ao ritmo do seu coração.

 
 

V

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E aceitou esse amor como uma condição. Nunca tentou descobrir de onde veio, quando veio ou porque ficou. Nunca tentou desvendar o mistério desse amor. Nunca tentou julgar esse amor.

Quando se ama alguém, temos a tendência a tentar descobrir o que fez com que esse amor nascesse. Tentamos encontrar o momento, aquele momento em que passou de afeição, passou de atracção, passou de paixão e tornou-se amor.

As crianças têm uma tendência a amar. Amam porque amam a descoberta. Tudo é novo. Tudo tem o seu mistério. A beleza das coisas à sua volta advém da ignorância. Tudo é lindo. Tudo é novo. Tudo é visto sem maldade. As coisas aceitam-se pelo que elas são. A luz é linda porque ilumina. Como o faz não interessa. O arco irís é lindo porque reflete um padrão de cores num céu normalmente monocrómico. Porque é que a luz é luz? Não interessa! É linda! E ama-se simplesmente por ser. O arco irís é lindo porque é! E ama-se simplesmente por ser.

A tentativa de racionalização de todos os fenómenos estraga a sua beleza. Destrói a sua beleza. Destrói porque deixamos de ser crianças e começamos a perguntar. Começamos a explicar palavra por palavra porque é que a luz é luz. Como se forma o arco íris. Racionalizamos a beleza, racionalizamos o mistério e deixamos de o amar. Mas este amor… Este amor ela nunca o questionou e nunca o racionalizou. É belo simplesmente por ser. É amor por ser amor. Nunca violou a sua beleza com questões que apenas servem para vulgarizá-lo. Ama-o e aceitou. Aceitou esse amor. Nunca tentou desvendar o mistério desse amor. Nunca tentou julgar esse amor.


 
VI

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E entregou-se a ele de corpo e alma. Mesmo sem ele o pedir. Mesmo sabendo que a sua alma podia não ser dela. Entregou-se. Deixou-se levar. Deixou-se viver em função desse amor.

Tudo à sua volta seguia o seu curso sem parar. O tempo sendo tempo, continuava a passar. Cresceu. Tornou-se de menina em mulher. E o seu amor permaneceu sempre ali no mesmo lugar. Preso por magia no seu olhar.

E sentia-se impotente. Um amor como este teria de se fazer notar. Pensava várias vezes em declarar-se, em render-se ao desejo de cair em seus braços. Em sentir o calor do seu beijo. Em sentir a fragrância do seu corpo. Mas como poderia ela trair este amor? Um amor como este teria de se fazer notar! Tantas foram as vezes que ficaram em silêncio de mãos dadas. Aquele formigueiro que surgia na ponta dos dedos e viajava por toda a extensão do seu corpo era impossível de passar despercebido. Ele sabia. Ele sentia. Só podia. Mas algo o impedia de avançar.

Teve vários pretendentes. Vários homens juraram amor eterno. Prometeram mundos e fundos em troca de uma oportunidade para que ela se deixasse amar. Mas não podia. Era impossível. Todos os outros lhe eram indiferentes. Ela não podia oferecer algo que não lhe pertence. Ela era dele. Só dele. Entregou-se. Deixou-se levar. Deixou-se viver em função desse amor.



VII

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. Tão simples quanto isso. Ela amava-o e ele era o seu amor. Aquele amor… O Amor, sabes?

E quando se deu conta já não era menina, já não era moça. E o amor cresceu com ela. O amor cresceu nela, sem nunca o declarar. Já era velhinha, já era tarde. Já não tinha forças para gritar, Amor!

E quando a sua hora chegou sentia-se feliz. Sentia que conseguiu guardar o seu amor. Mantê-lo ali só para si. E guardando esse amor, manteve-o a ele sempre ao pé de si. Sempre ao seu lado em todas as situações da sua vida. Com ele partilhou tudo menos a cama. Manteve o seu amor puro, porque nunca o tentou desvendar, nunca o tentou apagar, nunca o tentou consumar.

Mas agora que as forças abandonavam o seu corpo, de que adiantava guardar esse segredo? Para aonde mais iria levar esse amor? E bem baixinho, com a voz meio sumida disse-lhe ao ouvido: “Sabes? Por todos estes anos tens sido o meu amor. Aquele amor que dava até medo de dizer que era amor. Aquele amor que me acompanhou em todas as fases da minha vida. Aquele amor que dá um friozinho na barriga e uma volta ao estomâgo só de se pensar que se pode perder. Aquele amor… O Amor, sabes?”

E ele bem baixinho, com lágrimas a rolarem os olhos, respondeu: “Eu sei que sou o teu amor. Tu sempre fostes o meu amor. Aquele amor que não podia perder. Aquele amor que tinha de guardar só para mim. Aquele amor que temia que ao tornar-se publico fosse desvendado, fosse racionalizado, que fosse exterminado. Aquele amor que me fazia acordar todos os dias feliz por saber que tinha só para mim. Assim bem dentro do meu coração. E carreguei-o comigo toda a vida dentro do meu coração. E alimentava-o com o teu sorriso, com o teu olhar, com a tua beleza, com o teu silêncio, com a tua forma bela de me amar. E esse amor ficou amor, amor só de amor. Amor simplesmente por ser amor. Amor puro. Amor mistério. Amor de amor.”

“És o meu amor!” Disseram os dois em voz alta enquanto ela fechava os olhos. “És o meu amor!”. Tão simples quanto isso. Sem explicações. Eles amavam-se e viveram sem viver o seu grande amor. Aquele amor… O Amor, sabes?

Amor só por ser amor. Amor incondicional. Amor eterno. Amor de amor!

 

 
Adelaide Miranda, Setembro 2015