sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Mind you, I was there first!
Deitada, inerte e em paz...
Texto: Adelaide Miranda, 29 Setembro 2017
Imagem: Trigger Image
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Um Amor Incompatível
terça-feira, 30 de maio de 2017
quinta-feira, 11 de maio de 2017
quinta-feira, 4 de maio de 2017
A Estante
Um a um, Deborah, colocou os livros de volta na estante. Procurou por tanto tempo sem sequer saber o que procurava. O desespero que a tinha levado àquele quarto continuava a apertar-lhe o peito com uma força esmagadora. Encostou-se à beira da porta e olhou uma vez mais para a estante. Sentia que a resposta estava ali. Sabia que a resposta estava ali. Mas onde? O que seria?
Arrastou-se lentamente para o quarto e deitou-se a custo na cama. Cerrou os olhos quando a pancada da enxaqueca a atingiu, sem aviso. Apertou os lençois entre as mãos e respirou fundo. Aquela dor dilacerante não a deixava viver. Eventualmente, adormeceu. Acordou horas depois envolta em suor. Aos poucos, tentou levantar-se e começar mais um dia.
Mais um dia de sofrimento. Mais um dia de névoa. Mais um dia de dor...
Decidiu voltar à estante. Iria retirar os livros um a um, desfolhá-los com cuidado e de certo iria encontrar o que procurava. As horas passaram e a paciência foi-se esgotando. Atirou os livros todos ao chão num momento de fúria. Gritou de frustração e chorou com pena de si mesma. A pancada violenta da enxaqueca derrubou-a ao chão. Fechou os olhos e abriu-os a custo. Ao fundo, viu uma imagem que pareceu familiar. Fechou os olhos novamente e lentamente voltou a abri-los. Ali no meio dos livros estava uma foto... Rastejou até ela e agarrou-a com ambas as mãos. A imagem era bastante familiar. Sentiu naúseas e levou as mãos à boca. Foi assaltada por memórias que estavam enterradas na sua mente. Os olhos castanhos, as sardas e o cabelo espigado... O sorriso e os bracinhos pequenos e rechonchudos. Os beijos e as gargalhadas. Os abraços e as tardes passadas no parque. A imagem... A imagem do filho que o mundo roubou... Deixou-se estar ali, parada no tempo, e permitiu que as memórias a invadissem e, lentamente, retomassem o devido lugar. Tinha que aceitar o desígnio de Deus e dar graças aos momentos que tinha vivido. Era a única forma de continuar. Tinha de aprender a viver com a dor de perder um filho porque era impossível viver com a dor de tentar apagar um amor infinito.
quinta-feira, 30 de março de 2017
Desabar
Encontrei-o sentado no sofá da sala a chorar...
Senti uma dor tão aguda, como se tivesse acabado de ser esfaqueada. Agarrei-me ao peito e pressionei, ao mesmo tempo que me contorci, de forma a conter a dor.
Soube, ali, naquele momento, que ele não chorava por mim. Nunca o tinha visto a chorar... Aproximei-me, a custo, e ajoelhei-me junto ao sofá. Olhei para ele e, de leve, poisei-lhe a mão no peito.
- Já não me amas pois não? - Perguntei após reunir toda a coragem que tinha.
- Não sei... Não sei...
- Estás a pensar noutra mulher, não estás?
- Sim... - Respondeu após um silêncio prolongado.
- Estiveste com ela?
- Não te posso mentir. Estive, sim.
- É amor que sentes por ela?
- Não sei. É diferente. Com ela sinto-me...
- Sentes-te o quê?
- Mais vivo. Contigo... Contigo tudo é igual. Robotizado. Mecânico...
- Entendo...
- Perdoa-me.
- Não sei se consigo.
Levantei-me a custo e caminhei de cabeça erguida, com o pouco de dignidade que me restava.
Ouvi-o a chorar. Tive vontade de voltar atrás e pedir-lhe para retirar tudo o que tinha dito...
Não o fiz porque tinha noção de que a rotina diária tinha nos traído. Era óbvio que viviamos debaixo do mesmo tecto mas não partilhávamos a mesma vida. Eu já não me lembrava da sua música favorita. Não me lembrava da última vez que tinhamos rido juntos. Na realidade... Na realidade eu sentia-me presa. Por vezes, também sonhava em sentir-me viva.
Ouvi o telefone dele a tocar, ao fundo.
- Estou a pensar em ti. - Disse ele. - Acabei de falar com a Deborah. Falei-lhe de nós. Preciso estar contigo.
Respirei fundo. Abri a porta de casa e sai.



