quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Amor de Amor - Um Conto



O que acontece quando duas almas se amam e temem que a afirnação pública desse sentimento o estrague?
Consegue-se amar uma vida inteira sem o falar abertamente?

Amor de Amor


 

I

 

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. Tão simples quanto isso. Ela amava-o e ele era o seu amor. Aquele amor… O Amor, sabes?

Aquele amor que se quer escrever com letra grande: Amor!

Aquele amor que se quer gritar alto, bem alto, com todas as forças dos nossos pulmões: AMOR!

Aquele amor que dá um friozinho na barriga e uma volta ao estomâgo só de se pensar que se pode perder. Aquele amor… O Amor, sabes?


 
II

 

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. Só era uma pena que ele não o soubesse. Eram amigos há tantos anos. Já partilharam tantos momentos. Tantas e tantas coisas viveram juntos.

Mas ele não sabia que era o seu amor. Tantas foram as noites em claro a falar dos planos para o futuro, a planear as suas vidas em separado. Tantas foram as vezes que na brincadeira ela propôs que as vivessem em conjunto. E ele sempre no seu jeito de menino sorria e dizia que nunca se iriam separar. Amava-a, como a uma irmã. Aquela que nunca teve…

E ela respondia sempre com a voz sumida: “Eu amo-te claro, és tudo para mim…”. E por segundos sentavam-se ambos em silêncio a contemplar as estrelas, até que ele cortava o silêncio com uma nova história ou piada.

Tantas foram as vezes que ela quis perguntar o que ele pensava naqueles momentos. Será que secretamente ele também a amava? Seria pedir demais? Seria sonhar alto demais? Mas estava grata. Já partilharam tantos momentos. Tantas e tantas coisas viveram juntos.


 
III

 

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E perdia-se na intensidade do seu olhar. Deixava-se ir no espelho da sua alma. Transportava-se para dentro do seu ser.

O mundo através dos seus olhos valia a pena ser vivido. Os obstáculos valiam a pena de ser ultrapassados. Os sonhos valiam a pena ser sonhados. A felicidade ganhava uma maior intensidade. Não existiam problemas, só soluções. Tudo fazia mais sentido quando visto pelos seus olhos.

É tão bom amar assim. É tão bom amar deste jeito. Daquele jeito em que nos sentimos seguras. Daquele jeito em que acordamos a sorrir e nos deitamos a sorrir. Daquele jeito em que nos apanhamos a sonhar acordadas. Daquele jeito que mesmo sem música nos dá vontade para dançar. Amar sem questões. Amar só por amar.

E ela amava-o assim. Tão forte, tão profundo. De uma forma até difícil de explicar. De uma forma que não havia nada para cobrar. De uma forma que bastava estar ali, só pertinho dele. Juntinho. A falar de coisas sérias ou de baboseiras. Ali… juntinho. Que forma tão linda de amar. E por amá-lo tanto assim, deixava-se ir no espelho da sua alma. Transportava-se para dentro do seu ser.


 
IV

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E guardava em sua memória todas as suas feições. E o contorno do seu rosto. Memorizava cada nova linha de expressão. Fechava os olhos e conseguia desenhá-lo. Esculpi-lo com olhos vendados. Encontrá-lo no meio de uma multidão. Reconhecia a sua respiração. Dançava ao ritmo do seu coração.

Mas como pode alguém amar assim sem ninguém o saber? Mantinha a sua paixão em segredo. E quando perguntavam quando iria arranjar namorado, respondia num tom apressado que agora era tempo de estudar. Tempo de organizar a vida. Tempo de se tornar efetiva no trabalho. Tempo de apostar na carreira. E o tempo sendo tempo, sempre a passar. Mas quem precisa de namorar quando passa toda a sua vida a amar?

Das namoradas que ele teve, perdeu a conta. E como bela confidente arranjava sempre um defeito. “Aquela é feia. Esta fala muito. Aquela é muito baixa. Esta nunca fala. Aquela está sempre grudada em ti. Esta nunca tem tempo para ti.” E quando ele reclamava e perguntava como teria de ser a sua namorada para que ela a aprovasse, ela respondia num tom de voz sumido: “Olha tem de ser assim como eu. Parecida comigo. Tem de estar sempre junto de ti. Tem de te apoiar. Tem de te chamar à razão. Basicamente tem de te amar. Assim como eu!”. Ele sorria e dizia que assim nunca ia casar, porque ela era única…

Sim ela era única. Era provavelmente a única que o amava pelo que ele foi, pelo que ele era, pelo que ele algum dia seria. Ela era provavelmente a única que o encontrava no meio da multidão, que reconhecia a sua respiração… Dançava ao ritmo do seu coração.

 
 

V

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E aceitou esse amor como uma condição. Nunca tentou descobrir de onde veio, quando veio ou porque ficou. Nunca tentou desvendar o mistério desse amor. Nunca tentou julgar esse amor.

Quando se ama alguém, temos a tendência a tentar descobrir o que fez com que esse amor nascesse. Tentamos encontrar o momento, aquele momento em que passou de afeição, passou de atracção, passou de paixão e tornou-se amor.

As crianças têm uma tendência a amar. Amam porque amam a descoberta. Tudo é novo. Tudo tem o seu mistério. A beleza das coisas à sua volta advém da ignorância. Tudo é lindo. Tudo é novo. Tudo é visto sem maldade. As coisas aceitam-se pelo que elas são. A luz é linda porque ilumina. Como o faz não interessa. O arco irís é lindo porque reflete um padrão de cores num céu normalmente monocrómico. Porque é que a luz é luz? Não interessa! É linda! E ama-se simplesmente por ser. O arco irís é lindo porque é! E ama-se simplesmente por ser.

A tentativa de racionalização de todos os fenómenos estraga a sua beleza. Destrói a sua beleza. Destrói porque deixamos de ser crianças e começamos a perguntar. Começamos a explicar palavra por palavra porque é que a luz é luz. Como se forma o arco íris. Racionalizamos a beleza, racionalizamos o mistério e deixamos de o amar. Mas este amor… Este amor ela nunca o questionou e nunca o racionalizou. É belo simplesmente por ser. É amor por ser amor. Nunca violou a sua beleza com questões que apenas servem para vulgarizá-lo. Ama-o e aceitou. Aceitou esse amor. Nunca tentou desvendar o mistério desse amor. Nunca tentou julgar esse amor.


 
VI

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. E entregou-se a ele de corpo e alma. Mesmo sem ele o pedir. Mesmo sabendo que a sua alma podia não ser dela. Entregou-se. Deixou-se levar. Deixou-se viver em função desse amor.

Tudo à sua volta seguia o seu curso sem parar. O tempo sendo tempo, continuava a passar. Cresceu. Tornou-se de menina em mulher. E o seu amor permaneceu sempre ali no mesmo lugar. Preso por magia no seu olhar.

E sentia-se impotente. Um amor como este teria de se fazer notar. Pensava várias vezes em declarar-se, em render-se ao desejo de cair em seus braços. Em sentir o calor do seu beijo. Em sentir a fragrância do seu corpo. Mas como poderia ela trair este amor? Um amor como este teria de se fazer notar! Tantas foram as vezes que ficaram em silêncio de mãos dadas. Aquele formigueiro que surgia na ponta dos dedos e viajava por toda a extensão do seu corpo era impossível de passar despercebido. Ele sabia. Ele sentia. Só podia. Mas algo o impedia de avançar.

Teve vários pretendentes. Vários homens juraram amor eterno. Prometeram mundos e fundos em troca de uma oportunidade para que ela se deixasse amar. Mas não podia. Era impossível. Todos os outros lhe eram indiferentes. Ela não podia oferecer algo que não lhe pertence. Ela era dele. Só dele. Entregou-se. Deixou-se levar. Deixou-se viver em função desse amor.



VII

“És o meu amor!” Pensava ela para si quando o olhava nos olhos. “És o meu amor!”. Tão simples quanto isso. Ela amava-o e ele era o seu amor. Aquele amor… O Amor, sabes?

E quando se deu conta já não era menina, já não era moça. E o amor cresceu com ela. O amor cresceu nela, sem nunca o declarar. Já era velhinha, já era tarde. Já não tinha forças para gritar, Amor!

E quando a sua hora chegou sentia-se feliz. Sentia que conseguiu guardar o seu amor. Mantê-lo ali só para si. E guardando esse amor, manteve-o a ele sempre ao pé de si. Sempre ao seu lado em todas as situações da sua vida. Com ele partilhou tudo menos a cama. Manteve o seu amor puro, porque nunca o tentou desvendar, nunca o tentou apagar, nunca o tentou consumar.

Mas agora que as forças abandonavam o seu corpo, de que adiantava guardar esse segredo? Para aonde mais iria levar esse amor? E bem baixinho, com a voz meio sumida disse-lhe ao ouvido: “Sabes? Por todos estes anos tens sido o meu amor. Aquele amor que dava até medo de dizer que era amor. Aquele amor que me acompanhou em todas as fases da minha vida. Aquele amor que dá um friozinho na barriga e uma volta ao estomâgo só de se pensar que se pode perder. Aquele amor… O Amor, sabes?”

E ele bem baixinho, com lágrimas a rolarem os olhos, respondeu: “Eu sei que sou o teu amor. Tu sempre fostes o meu amor. Aquele amor que não podia perder. Aquele amor que tinha de guardar só para mim. Aquele amor que temia que ao tornar-se publico fosse desvendado, fosse racionalizado, que fosse exterminado. Aquele amor que me fazia acordar todos os dias feliz por saber que tinha só para mim. Assim bem dentro do meu coração. E carreguei-o comigo toda a vida dentro do meu coração. E alimentava-o com o teu sorriso, com o teu olhar, com a tua beleza, com o teu silêncio, com a tua forma bela de me amar. E esse amor ficou amor, amor só de amor. Amor simplesmente por ser amor. Amor puro. Amor mistério. Amor de amor.”

“És o meu amor!” Disseram os dois em voz alta enquanto ela fechava os olhos. “És o meu amor!”. Tão simples quanto isso. Sem explicações. Eles amavam-se e viveram sem viver o seu grande amor. Aquele amor… O Amor, sabes?

Amor só por ser amor. Amor incondicional. Amor eterno. Amor de amor!

 

 
Adelaide Miranda, Setembro 2015

terça-feira, 19 de julho de 2016

Em segredo...



Quero-te em segredo,
olho para ti e derreto por dentro...
Mantenho a postura e afasto-me.
Tenho medo que me toques
e eu revele o meu segredo...
Não tenho coragem
de olhar-te nos olhos, temo...
Temo que me leias a alma
e descubras o quanto te desejo.
Não tenho coragem 
de falar contigo, temo...
Temo que os meus pensamentos
falem bem mais alto.
Não tenho coragem...
Quero-te em segredo,
penso em ti e ardo de desejo...
Mantenho-me em silêncio e aproximo-me...
Quero tanto que me toques
e me libertes deste medo...
Adelaide Miranda, 18/07/2016



segunda-feira, 18 de julho de 2016

Love, Betrayal and Kizomba - 5 Chapters

Will David manage to save his marriage?

Prologue
I had just arrived home. I put the keys on the table in the entrance hall and turned the living room lights on. Deborah, as usual, was already upstairs locked in our room. It was barely nine o'clock and she was already curled up under the sheets asleep, or pretending to be asleep.
I sat on the couch, trying to watch TV. I looked around and I felt such a void that it brought tears to my eyes.
 ‘Come on, man! Men don't cry!’ I said to myself.
At that time, that was how it used to be; the tears rolled down my cheeks and I wondered what my father would say if he saw me crying. But I couldn’t help myself; the situation troubled me and I didn’t know how much longer I could stand not doing anything about it. I certainly wasn’t old but I wasn’t getting younger. I couldn’t continue to live as if nothing had happened. We didn’t function as a couple. I couldn’t say where we got lost, but the reality was right there in front of my eyes and I couldn’t ignore it any longer. We weren’t happy, period.
I remember when we met and everything seemed to be magical.  There wasn’t a day we weren’t together, and when we weren’t together we spent hours on the phone. I would pass by her house in the mornings and we’d walk to school holding hands. During classes, we would sit at the same desk and study together. We went to the same university and took the same course. We were always together and we never got fed up with each other. Getting married was the next logical step, as essential to life as breathing, and so we did. It was a dream wedding; she had always wanted to get married like a princess, and both her parents and I made sure that her desire came true. When I saw her walking down the aisle towards me, my heart fluttered and I felt as though I would die at any moment. I recovered my senses when the priest had pronounced us husband and wife, and let me kiss the bride. Our lips touched and colour returned to my cheeks. Regardless of all the kisses we’d exchanged, of so many nights of love that we had lived, that one kiss before God made me reborn as a new man. I left the church as Deborah’s husband and protector, as well as her best friend. I had to ensure that from that moment on she had everything she needed. I couldn’t break the vow that I’d made before God: to have and to hold from this day forward; for better, for worse; for richer, for poorer; in sickness and in health; to love and to cherish; ‘til death us do part.
During those early years, we were happy. I’d even say ecstatic. Although we worked in different companies, we spent our nights together. We cooked together and enjoyed our meals looking eye to eye, and hand in hand, not wanting to miss a moment. I don’t know exactly when this began to change, but the dinners together gradually became fewer, the holidays ceased to exist, the plans together failed to materialize…
Wait… I am fooling myself. I know very well when things started to fall apart: it was with the first pregnancy test. The disappointment was etched in Deborah’s face when the sign was negative, and that was the beginning of our downfall. The three pregnancies that never crossed the first trimester, the nights crying after the doctor said that it would be physiologically impossible for her to bear a child. She would never be a mother, and that caused her so much pain. The kisses and the hugs I gave to her to relieve her pain; the gifts and the holidays I gave  her just to see her smile again. The mixture of joy and pain when our friends called us to tell us that they were going to be parents; I know she had a really difficult time and I know she suffered a lot. I tried to ease that pain, but from my perspective, only a child could bring my Deborah back to me.

I suggested we adopt a child. She looked into my eyes, like she was going to punch me, and told me that it really wasn’t the same thing. She wanted a child who had my eyes and her smile, a child who was lovely like her and wise like me, a child who would revive our love. How could she love an adopted child the same way you love a child that has grown inside your own body? The bonds that form during pregnancy, the love that grows day by day, from movement to movement, from kick to kick. That, in her opinion, would be impossible to recreate. I tried to explain to her that that wasn’t true… That the love for an adopted child exists from the moment we both see it and grows as we realise that this child will be ours forever. And that love strengthens from day to day, from hug to hug, from kiss to kiss. I really believe in that. I think nurturing and raising a child makes a father or a mother. Making a child, for most people, is easy. Loving and nurturing a child isn’t for everyone. I think Deborah thought I didn’t mean it when I said that, or that I’d only said it to make her feel better.
One day, in a heated discussion, she asked me to leave her and be with a woman who was one hundred percent woman, a woman who could give me the children that I desired so much. In anger I answered that I was going to do just that. I opened the door and left home. When I took the first step and took a deep breath, I thought about the way she looked at me when I spoke those words. I realised that I had made an unforgivable mistake, but I had already spoken and I couldn’t take back those words. And on that day, on that same day, I lost Deborah. When I think back over that event, I am quite sure that it was on that same day I also lost what was left of our marriage.
Sitting on the couch, I wiped my eyes trying to avoid the tears.
‘Men don't cry,’ I whispered to myself again. I got up and went to the kitchen to find something to eat. Gone were the days when Deborah left food for me. Gone were the days when we cooked together. Gone were the days when we were happy. As I was going up to the bedroom, I could hear her sobbing. I felt a tremendous urge to fly up the stairs and hold her. I was her prince, I had to do something. The truth is that I no longer knew what to do. I stopped in the middle of the stairs and went back downstairs like a coward. It was ridiculous: Me crying in the living room while she was crying in the bedroom; neither one of us able to search for some sort of relief in each other’s’ arms.
“For better and for worse”, it even seemed like a curse. “‘til death do us part…”, but would that be death? Perhaps we were both dead and we didn’t know! Perhaps we had both died when the doctor gave us that damn diagnosis
‘Enough! Enough! This has to end,’ I said to myself in a temper.
‘We have to turn the page to the next chapter of our lives! I’m thirty-eight… We have been together for more than twenty years, but we still have our whole lives ahead of us. This death in life will not separate us,’ I decided at that moment to fight with all my strength to save my marriage.
I remembered that when we met, Deborah loved to dance. She had an Angolan friend and she learned how to dance Kizomba with her. They went to matinées at a disco called RockLine, in Loures, and danced all afternoon. I didn’t know how to dance, and when we started dating, she stopped going there. In the beginning, she tried to teach me and awaken the passion for dance, but I was always such a bore that I never got interested in it. I told her that the only dance we needed was in bed. A few years ago, before our lives fell apart, she signed us up for Kizomba classes near home. I went to two classes and I refused to go back. My two left feet betrayed me and, instead of having fun, we ended fighting, leaving us even more frustrated.
I confess that I could've tried a bit more, made more of an effort, because she was so happy when I told her that yes, I would learn to dance with her. I remember the hug and the kiss she gave me like it was yesterday. She said I was the best husband in the world.
That was it! I was going to enrol us both in a Kizomba school! She had always told me that Kizomba was the dance of lovers and that if I didn't dance with her she had to stop dancing because she didn't think it was appropriate to snuggle up with some other guy. Who knows if dancing could bring the closeness we had lost? Who knew if we would remember how to embrace and how to kiss? Who knew if we would dance in bed again? It seemed a lovesick teenager plan, but it was the only plan I had at that time. It was the only idea I had to try to save my marriage.
‘Until death do us part…’ no such thing will happen.
‘Until dance join us…’ I encouraged myself.
‘Deborah, my Deborah, I will find the way back to you. I will learn how to dance in your arms. I will feel your scent again, my love. Your Prince Charming is on the way. Wait for me just a little longer…’ I said softly with a glimmer of hope in my eyes and a sad smile on my lips.
The future of my marriage depended on my two left feet.

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"Amor Traição e Kizomba"

Os primeiros capítulos...


Prólogo

Tinha acabado de chegar a casa. Coloquei as chaves na mesinha do hall de entrada e acendi as luzes da sala. A Deborah, como vinha sendo hábito sempre que eu metia um pé dentro do nosso refúgio, estava deitada sobre a cama. Mal passava das nove da noite e já ela se encontrava enrolada nos lençóis a dormir - ou a fingir dormir.
Sentei-me no sofá na tentativa de ver televisão. Olhei à minha volta e senti um vazio tão grande que até me vieram lágrimas aos olhos.
- Então, pah! Os homens não choram. - disse para mim mesmo.
Naquela altura, era assim, as lágrimas escorriam-me pelos olhos e imagino o que o meu pai diria se me visse chorar. Mas não me conseguia conter porque a situação incomodava-me e não sabia quanto tempo mais aguentaria sem tomar qualquer providência. Não era velho mas também não era novo. Não podia continuar a viver como se nada se passasse. Não funcionávamos como casal… Já tínhamos sido… Desconhecia onde nos tínhamos perdido, mas a realidade estava ali mesmo em frente aos meus olhos e já não a podia ignorar. Não éramos felizes e ponto final.
Lembro-me bem de quando nos conhecemos tudo parecia mágico, não havia um dia em que não estivéssemos juntos e, quando não estávamos juntos passávamos horas ao telefone. Antes de ir para a escola, passava pela casa dela e íamos de mão dada… Nas aulas, sentávamo-nos na mesma carteira e estudávamos juntos... Fomos para a mesma faculdade e fizemos o mesmo curso. Sempre juntos e nunca fartos um do outro. Casar, era o único passo a seguir - tão essencial quanto respirar - e assim o fizemos. O casamento foi de sonho: ela sempre quis casar como uma princesa e, tanto eu quanto os seus pais, fizemos questão que tal desejo se tornasse real. Quando a vi entrar na igreja, o coração bateu descompassado e eu morri. Lembro-me de ter ressuscitado, quando o padre nos declarou marido e mulher e me permitiu beijar a noiva. Os nossos lábios juntaram-se e a cor voltou-me às faces. Apesar de tantos beijos trocados, de tantas noites de amor que tínhamos vivido, aquele beijo diante de Deus fez-me renascer enquanto novo homem. Saí da igreja como marido, protetor e príncipe encantado da Deborah. Tinha de garantir que a partir desse momento nada lhe faltaria. Não podia faltar à minha promessa perante Deus: amar, respeitar, cuidar, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza até que a morte nos separasse.
Durante os primeiros anos fomos felizes. Fomos até muito felizes. Embora trabalhássemos em empresas diferentes, as noites eram passadas em conjunto. Cozinhávamos juntos para aproveitar o tempo e apreciávamos as refeições de olhos nos olhos e de mãos nas mãos. Não sei dizer exatamente quando isso começou a mudar, mas os jantares a dois diminuíram gradualmente, as férias deixaram de existir, os planos em conjunto deixaram de se concretizar…
Calma… Engano-me a mim mesmo. Sei bem quando as coisas começaram a ruir: foi com o primeiro primeiro teste de gravidez. A desilusão espelhada na cara da Deborah quando o sinal deu negativo foi o começo de tudo. As três gravidezes que nunca passaram do primeiro trimestre, as noites de choro após a médica dizer que lhe seria fisiologicamente impossível gerar uma criança… Ela nunca poderia ser mãe, a dor que isso lhe causou… Os beijos e os abraços que lhe dei para amenizar essa dor, os presentes e as viagens na tentativa de voltar a vê-la sorrir, o misto de alegria e dor quando os nossos amigos nos ligavam a contar que iam ser pais… Sei que lhe custou muito e sei o quanto lhe doeu. Tentei aparar-lhe a dor, mas a meu ver só um filho poderia trazer-me de volta a minha Deborah.
Sugeri adotarmos uma criança. Ela olhou-me nos olhos como que se me fosse fulminar e disse-me que nunca seria a mesma coisa. Ela queria um filho que tivesse os meus olhos e o seu sorriso, um filho que fosse adorável como ela e ajuizado como eu, um filho que lhe fizesse lembrar o nosso amor… Como poderia amar uma criança adotada da mesma forma que se ama um filho que se gera dentro do próprio corpo? Os laços que se formam durante a gravidez, o amor que cresce de dia para dia, de movimento para movimento, de pontapé para pontapé… Isso, na sua opinião, seria impossível de recriar. Eu tentei explicar-lhe que não… Que o amor por uma criança adotada nasce no primeiro dia em que a vemos… Nasce no dia em que decidimos que esta criança será nossa para sempre. E esse amor cresce de dia para dia, de abraço para abraço, de beijo para beijo… Eu acredito realmente nisso. Acho que pai ou mãe é quem cuida e quem cria. Fazer um filho, para a maioria, é fácil. Amar e cuidar de um filho não é para qualquer um. Acho que a Deborah pensou que eu apenas lhe disse isso por dizer ou para a fazer sentir melhor.
Um dia, numa discussão acesa, pediu-me que a deixasse. Que fosse ter com uma mulher que fosse cem por cento mulher, uma mulher que pudesse dar-me os filhos que eu tanto queria. Respondi irritado que era isso mesmo que ia fazer. Abri a porta e saí disparado de casa. Quando dei o primeiro passo e respirei fundo, revi a forma como olhou para mim no momento em que proferi tais palavras. Percebi que tinha cometido um erro imperdoável, mas já as tinha dito e não as podia retirar. E, nesse dia, nesse dia perdi a Deborah. Relembrando os acontecimentos, apercebi-me de que nesse mesmo dia também perdi o que ainda restava do nosso casamento.
Sentado no sofá, limpei os olhos marejados de lágrimas.
- Os homens não choram… - repeti baixinho para mim.
Levantei-me e fui à cozinha procurar algo para comer. Lá se foram os dias em que a Deborah deixava comida para mim, lá se foram os dias em que cozinhávamos em conjunto, enfim, lá se foram os dias em que éramos felizes. Ao subir para o quarto ouvia-a soluçar. Senti uma vontade enorme de galgar as escadas e abraçá-la. Eu era o seu príncipe encantado, tinha de fazer alguma coisa… A verdade é que eu já não sabia como. Parei a meio e desci as escadas como um cobarde. Foi ridículo. Aquilo tudo foi ridículo. Eu a chorar na sala, ela a chorar no quarto e nenhum dos dois era capaz de confortar a cara-metade.
“Na alegria e na tristeza…”, até parecia uma maldição. “Até que a morte nos separe…”, mas seria aquilo a morte? Será que estávamos ambos mortos e não sabíamos? Será que tínhamos morrido os dois no momento em que a médica deu o maldito diagnóstico de que o nosso amor nunca geraria frutos?
- Chega! Chega! Isto tem de acabar. - vociferei para mim mesmo.
- Há que dar a volta a isto! Tenho 38 anos… Estamos juntos há mais de 20 anos, mas ainda temos uma vida pela frente. Não é esta morte em vida que nos vai separar. -  decidi, naquele momento, lutar com todas as forças que tinha para salvar o meu casamento.
Lembrei-me que quando nos conhecemos, a Deborah gostava muito de dançar. Tinha uma amiga angolana e aprendeu a dançar Kizomba com ela. Iam a matinés para uma discoteca chamada RockLine, situada em Loures, e dançavam a tarde toda. Eu nunca soube dançar e quando começámos a namorar ela deixou de ir. No início tentou ensinar-me e incutir em mim o gosto pela dança, mas sempre fui um “cortes” e nunca me interessei. Dizia-lhe que a nossa dança era na cama. Há uns anos atrás, antes de a nossa vida se desmoronar, ela inscreveu-nos aos dois numas aulas de Kizomba ao pé de casa. Eu fui a duas aulas e recusei-me a voltar. Os meus dois pés esquerdos traíram-me e em vez de nos divertirmos acabámos por discutir e sair de lá mais frustrados. Confesso que podia ter tentado mais um pouco, ter feito um esforço maior, até porque ela se mostrou tão contente quando eu lhe disse que sim, que ia consigo aprender a dançar. Lembro-me do abraço e do beijo que me deu como se fosse ontem. Disse que eu era o melhor marido do mundo.
Era isso mesmo… Eu ia inscrever-nos aos dois numa escola de Kizomba! Ela sempre me tinha dito que Kizomba era a dança dos amantes e que se eu não dançasse com ela teria de deixar de dançar por não achar apropriado enroscar-se noutro gajo qualquer. Quem sabe se dançar não traria aquela proximidade que tínhamos perdido? Quem sabe se não nos relembraríamos de como se abraça e de como se beija? Quem sabe se não voltaríamos a dançar na cama? Parecia um plano desesperado de um adolescente, mas era o único que eu tinha nesse momento. Era a minha única ideia para tentar salvar o meu casamento.
- Até que a morte nos separe… -  nada disso.
- Até que a dança nos junte… - encorajei-me.
- Deborah, minha Deborah, vou encontrar o caminho de volta para ti. Vou aprender a dançar nos teus braços. Vou voltar a sentir o teu cheiro, meu amor. O teu príncipe encantado vai a caminho. Espera por mim só mais um pouquinho… - falei baixinho com um brilho de esperança nos olhos e um sorriso triste nos lábios.

O futuro do meu casamento dependia dos meus dois pés esquerdos.

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