quarta-feira, 16 de maio de 2018

A dona da razão e a sua solidão.

Deborah, tinha a mania que sabia de tudo. Raramente tinha paciência para ouvir os outros.
Achava-se a dona da razão. Escutar, simplesmente, não estava no seu dicionário.
Com o passar da vida, Deborah, foi ficando cada vez mais isolada, mais sozinha. Encontrou-se na companhia da sua razão. Tomava o pequeno almoço com a sua razão, conversava com a sua razão, trabalhava com a sua razão e deitava-se com a sua razão.
Sentia-se triste com a sua razão, até porque não havia ninguém para a desafiar. Não haviam desafios nem conversas. Deborah, tinha a sabedoria com ela e não se sentia feliz.
Um dia, sentou-se à mesa com os outros e deixou a sua razão de lado. Não proferiu uma palavra. Quem a conhecia estranhou tal facto, era raro Deborah não deixar a sua razão falar.
Nesse dia, apenas deitou-se com a sua razão, não passou o dia com ela. E o dia, afinal de contas, até correu bem.
Passou a pedir à sua razão para escutar a razão dos outros. Afinal, ter razão e não ter com quem a partilhar não fazia muito sentido.
A razão obedeceu e, Deborah, reparou que afinal não sabia tudo. Nos últimos meses tinha aprendido coisas valiosas. Tomava o pequeno almoço com os amigos, sim, encontrou amigos, escutava os amigos, trabalhava com os amigos e deitava-se com a sua razão.
Deborah, nesses dias, sentiu uma leveza que a acompanhava. Ter sempre razão era, afinal, um fardo muito grande de carregar. Deborah, estava leve e feliz. Supreendeu-se quando a dada altura, enquanto escutava os amigos, estes perguntaram a sua opinião. Gostavam de ouvir falar a sua razão. Deborah, pensou cuidadosamente e deu a sua opinião com base no que tinha ouvido nos últimos tempos. Todos ouviram calados e assentiram com agrado. Deborah tinha razão, concordaram com ela. As conversas entre amigos continuaram e, Deborah, trazia a sua razão com ela, escutava atentamente, e apenas a permitia falar quando parecesse oportuno ou quando a questionassem. Afinal, ter razão e ter com quem a partilhar fazia todo o sentido.
Deborah, deixou de ter a mania que sabia de tudo. Raramente tinha paciência para falar sem motivo aparente para o fazer. Deborah, aprendeu a viver com a sua razão e a razão dos outros. Deborah, nunca mais se sentiu sozinha. Deborah, sentiu-se mais leve e feliz. Era tão bom ter algo para partilhar com os outros!
Deborah, deixou de ter sempre razão e passou a ser mais feliz. E assim, terminou os seus dias.
Adelaide Miranda, 17/05/2018


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