sábado, 12 de maio de 2018

Se tu não Estiveres aqui

Sara Ana Macedo Afonso
Vanessa Lourenço
Fábio Pinto
Ana Pinto Afonso
Ana Ribeiro
Fábio Serqueira
Adelaide Miranda
Débora Macedo Afonso

Fevereiro 2016





Se Tu Não Estiveres Aqui
Se Tu Não Estiveres Aqui

Enquanto procurava uns papéis nas gavetas do escritório, esses papéis chatos que todos os adultos têm que preencher e que têm de ter em ordem, Lara decidiu que era o momento certo para arrumar toda aquela confusão.
Tirou as gavetas todas da secretária e depositou-as pelo chão. Sentou-se na sua cadeira preferida lá de casa: uma poltrona enorme, grande, com uns estampados cheios de cor, encostada à enorme janela que ilumina o escritório. Primeiro procurou pelos papéis que eram mais importantes, os tais papéis... Assim que deu com eles colocou-os de parte e continuou naquela arrumação que lhe parecia interminável. Apercebeu-se que dentro daqueles seis pedaços de madeira, em forma retangular, estava muito do que era a sua vida. Acabou por rir de si mesma:
- Tenho 35 anos e a minha vida cabe em seis gavetas de uma secretária. - Pensou para si. Teria feito assim tão pouco? Sim, ainda tinha muito pela frente, mas de repente surgiu aquela sensação que havia algo que lhe estava a escapar. Encontrou mais papéis, e algumas lembranças da escola: cartas das amigas, coleções de porta-chaves e de isqueiros, e claro, álbuns de fotografias. Alguns desses álbuns eram da casa dos seus pais, que ela “roubou” para os ter mais perto de si. Neles podem-se encontrar fotos de família, de quando era bebé, dos seus pais ainda jovens, das suas aventuras nas férias e as típicas fotografias da escola. Deu por si, a encolher-se na poltrona, comovida enquanto esfolheava aqueles álbuns. Tantas pessoas que já tinham passado na sua vida, muitas delas já nem se lembrava dos seus nomes, outras seriam sempre insubstituíveis. Ainda guarda amigas do tempo da primária, e outros ainda a acompanham nesta nova etapa da sua vida. Mas a maior parte deles, se os visse na rua não os reconheceria. E eles? Ainda saberiam quem era? Será que os marcou de maneira diferente, que eles a si? Mergulhada naqueles pensamentos, nem viu as horas passarem, e folheou mais um álbum quando deu de caras com uma foto de um rapaz alto, de olhar intenso, cabelo acastanhado a combinar com o seu tom de pele dourado, sorriso largo, de calções de praia, com o pôr-do-sol ao fundo, olhava para a câmara com um braço levantado como que a chamá-la. Ficou presa naquele olhar, automaticamente, sorriu, lembrando-se daquele dia, lembrando daquele rapaz: o Tristão.
Não foi assim há tanto tempo, e no entanto parece que passou uma vida inteira desde a última vez que o viu. Olhou para lá da janela do escritório e a vista da cidade assombrou-a mas o seu olhar foi mais além, para lá da paisagem, para lá do horizonte, para lá do tempo… E regressou ao dia em que o Tristão entrou na sua vida e a transformou para sempre.
Naquele ano, quando completou os seus 16 anos, estavam em pleno Outono, as aulas tinham começado há poucos dias, e sentia-se no ar aquele reboliço e agitação próprio do regresso.
Lara era a típica miúda atinada e responsável que só pensava nos estudos, em acabar depressa o secundário para sair daquele lugar e começar a sua vida. Relembrando aquele tempo Lara deu com ela a ter pena de si mesma por tantas vezes ter sido idiota e ter desperdiçado tantas aventuras, tantos momentos, tanta vida… Mas estava prestes a haver uma grande mudança na sua vida, e sim por causa de um rapaz. Parece cliché, ela sabia, mas o Tristão foi realmente o grande momento da sua vida.
A primeira vez que o viu, encontrava-se na biblioteca da escola, já tinha passado uma semana desde o início das aulas, e Lara andava à procura das obras literárias que iam estudar naquele ano. A biblioteca era o seu lugar preferido da escola, as suas amigas tinham ficado no bufete, e só o Eduardo, seu melhor amigo, tinha ido com ela, mas acabou por ficar no cantinho dos computadores, logo na entrada. Lara embrenhou-se pelas estantes e corredores da biblioteca, apreciando aquele momento de estar no meio de tanto talento, de tanta história, de tanta vida… Começou à procura do livro em questão e de repente sentiu-se como que a ser observada, mas não deu muita importância e continuou no seu mundo. Contudo, no momento em que tirou o livro “Pedro e Inês” da estante, os seus olhos prenderam-se aos dele, separados por uma estante cheia, as suas vidas encontraram-se naquele vazio que o livro deixou, e foi como se o tempo tivesse parado, como se o mundo não mais girasse e tudo à volta deles ficasse em câmara lenta. Ele sorriu primeiro e Lara correspondeu sem sequer se aperceber, timidamente, acabaram por desprender o olhar, ele virou as costas e saiu dali. Lara ficou ali, ainda alguns instantes quieta, de olhar distante, e com apenas uma certeza: aquele momento iria mudar a sua vida…
E foi assim que deu consigo, sorrindo sentada na sua poltrona colorida e acabada de regressar de um devaneio do passado que tinha trazido de volta recordações tão marcantes e tão capazes de fazer regressar ao seu coração as borboletas da sua adolescência. Á sua volta os álbuns de fotografias e toda aquela papelada fizeram-na pensar... Em que momento é que o percurso que ela acreditava com tanta intensidade que lhe traria a vida dos seus sonhos se tinha tornado numa existência tão banal? Pensou que se as pessoas pudessem identificar o momento em que cada um desiste de perseguir os seus sonhos de juventude e direcciona todos os recursos para corresponder ao lugar que a sociedade exige que ocupe, algo pudesse mudar. Talvez tivesse sido diferente... Talvez ainda estivessem juntos.
Aquele último pensamento arrepiou-a. Não fazia ideia que uma simples fotografia pudesse trazer de volta mágoas tão antigas, esperava que depois de todos estes anos nada mais restasse do que a memória agradável dos momentos felizes. E no entanto, forçou-se a levantar.
Já chega de tontices.
De volta ao presente que podia não ser a vida dos seus sonhos de menina, mas que lhe permitia ser independente e pagar as suas próprias contas, tentou abafar as recordações de Tristão com pensamentos práticos, organizar toda aquela papelada não iria ser fácil e ainda tinha que sair para comprar algo para jantar. “Algo saudável”, forçou-se a acrescentar. Nos últimos tempos o stress do dia-a-dia e o pouquíssimo tempo livre tinham levado a que se descuidasse e o seu corpo começava a ressentir-se. Como tal, prometeu esforçar-se para comer melhor.
Quando terminou de organizar os papéis, pensou como seria bom poder enroscar-se no sofá com um bom livro e não pensar em mais nada, o resto da tarde. Mas tinha mesmo que sair para fazer as compras, e uma rápida olhadela pela janela trouxe-lhe a imagem de uma tarde solarenga daquelas que convida a sair de casa e arejar as ideias. Não que precisasse... Ou precisava? As memórias de Tristão continuavam a forçar caminho na sua mente e estava na altura de colocá-las de uma vez por todas no lugar de onde nunca deviam ter saído: o seu passado. Vestiu o casaco, procurou as chaves de casa, dentro da mala, e saiu.
Já dentro do carro e a caminho do supermercado, ocorreu-lhe que a realidade de todos os dias se podia muito bem aproximar da dos filmes de vez em quando. Se assim fosse, não tardaria a cruzar-se com um Tristão mais adulto talvez já sem aquelas madeixas rebeldes ou as t-shirts justas tão características de quem tem um corpo bonito e gosta de o mostrar, mas ainda assim seria o Tristão, e reconhecê-lo-ia imediatamente. E claro que também ele a reconheceria desde logo. Quem sabe junto da secção da fruta ou dos legumes do supermercado? Não imaginava que ele se pudesse desleixar como ela se tinha desleixado com a sua silhueta e seria aí o lugar mais provável para encontrá-lo.
Uma buzinadela tremenda e tudo o que teve tempo de fazer foi guinar o volante para a direita, para evitarmos o impacto. No meio do seu final feliz inventado, Lara passou um sinal vermelho e por pouco evitou o pior. Depois de recuperar do susto, ouvir alguns impropérios e pedir muitas desculpas ao condutor do outro carro, decidiu com firmeza que tinha que voltar a ter controlo dos seus pensamentos e das suas emoções. Tristão tinha deixado de fazer parte da sua vida há muito tempo, não fazia sequer ideia de por onde andaria naquele momento e era uma parvoíce fantasiar sobre um possível reencontro com ele. Respirou fundo, e concentrou-se o resto do caminho até ao supermercado a rever uma e outra vez a lista de mantimentos que tinha que comprar.
Por mais que ela quisesse e tentasse cair na realidade, não conseguia. Tristão estava-lhe presente no pensamento a toda hora em todos os instantes. Estacionou o carro, desligou, respirou fundo, para se acalmar, tirou a chaves, saiu, trancou-o e foi buscar um carrinho, não que fosse comprar muita coisa, mas podia haver uma promoção que lhe agradasse, ou talvez se lembrasse de alguma coisa há última da hora lá para casa, como era habitual.
Foi directa à secção dos legumes e frutas, mesmo sabendo que não é a primeira secção a que devemos ir, pois pode ficar tudo amassado, porém é hábito, desde que se lembra de fazer compras, é sempre por aqui que começa. Tanto ela, como a maior partem das pessoas. 
Enquanto deixou o carrinho encostado para ir buscar um saco para colocar meia dúzia de maçãs, viu alguém a tentar levá-lo e intervir.
– Desculpe mas esse carrinho é meu. – Disse ao senhor que estava de costas para si.
– Desculpa foi sem intenção. – E virou-se... – Lara, és tu? Como estás? – E agarrou-a dando-lhe dois beijos nas maçãs do rosto.
É ele, o Tristão... " Cheira tão bem ". Não pode ser. Não pode. Pensou, enquanto olhava estupefacta. Este destino matreiro.
– Eu, eu... - Teimavam em não sair as palavras, estavam como que entaladas, presas... – Não estava à espera de te encontrar. Ao fim de tanto tempo. Aqui assim, no supermercado. Que coincidência. - Disse-lhe por fim, após batalhar consigo mesma para conseguir falar. 
– Continuas igual. O teu sorriso, continua igual: doce e sereno. - Elogiou ele, tal como costumava fazer no tempo de escola.
– Tu... Tu... - Outra vez a guerra das palavras. Respira. Concentra-te no que vais dizer. Respira. – Tu estás muito bem também. - Disse-lhe nervosa.
Fez-se silêncio, e naquele instante os dois olhares cruzaram-se, como que se estivessem perdidos, como que se há muito se procurassem, mas sem sucesso até então. A vontade de dizer-lhe tudo o que queria dizer tempos atrás era enorme, mas as palavras consumiam-na, era como se quando as fosse dizer, as palavras a fizessem tropeçar e ficar em silêncio, era como que... Sei lá. Queria dizê-las, mas não conseguia.
- Não digas mais nada e beija-me. Cola a tua boca na minha e não descoles... Abraça-me nesse teu olhar e leva-me contigo nessa aventura, partilhemos não só os corpos, mas sim as almas. - Pensou para si sem as conseguir proferir.
Queria poder dizer-lhe que ele é o amor da sua vida, mas, não podia. Não sabia nada sobre ele. Agora era como que se fosse um desconhecido que estava a conhecer neste preciso momento.
Raios de vida. Raios de destino, raios tudo. - Pensou num misto de nervosismo, ansiedade e raiva.
– Dás-me o teu número de telefone? - Perguntou ele, arrastando-a de volta à realidade, nua e crua, em que eram apenas a Lara e o Tristão dois amigos de escola que se reencontram por acaso no supermercado. 
– Sim, claro. - Respondeu-lhe, sobre o seu olhar ainda distante, enquanto procurava o cartão que tinha na mala com todos os seus contactos.
– Marcamos um café? Para relembrar velhos tempos e pormos a conversa em dia. Já lá vão uns anitos. – Continuou enquanto se despedia de Lara com um sorriso meigo e dócil.
Lara limitou-se apenas a acenar com a cabeça de forma positiva, enquanto o via ir-se embora dali.
Saíu imediatamente dali a correr, não queria correr o risco de encontrar-se com ele novamente. 
As compras afinal não eram assim tão importantes e haveria bastante tempo para fazê-las. 
Foi para o carro ainda meio atordoada com o encontro inesperado, e nem pensou, foi logo para casa. 
À entrada de casa enquanto procurava a chave para abrir a porta, sentiu o telemóvel a vibrar, também ele perdido dentro da mala.
Encontrou a chave, abriu a porta e foi a correr até à cozinha. Tirou a mala do ombro e despejou o seu conteúdo sobre a mesa, lá estava ele, o seu telemóvel, seu malandro.
Tinha as mãos a tremer, sabia que tinha uma mensagem e tinha a certeza que era dele, do Tristão. Sim era dele. 
“Quero voltar a ver-te, continuas igual, quero saber de ti, de tudo. Lembras-te do nosso café nos tempos de escola? Aquele para onde íamos sempre? Espero poder ver-te lá amanhã por volta das 17h. Tristão ".
 “Raios, que vou eu vestir? E se não conseguir falar outra vez? E se começar a meter os pés pelas mãos, ou as mãos pelos pés, ou seja lá o que for que isso quer dizer ou como se diz... O que pensará ele de mim?”, Pensou Lara enquanto se tentava acalmar.
“Respira Lara”, dizia a sua consciência em altos berros.
Respirou fundo, recompôs-se, foi até à sua poltrona e sentou-se como que se tivesse caído do cansaço.
Olhava em vão, para todas as paredes da casa, queria que o dia de hoje acabasse, queria o amanhã e rápido, queria as 17h de amanhã. Queria...
Não se lembrava de mais nada, a não ser pensar em querer adormecer...
  Adormecer? Esta é boa... Conhecendo-se como se conhecia seria missão impossível. Tinha a plena certeza que não pregaria olho toda a noite, era sempre assim quando ficava ansiosa por algo. E ainda restava passar aquela tarde, mais a manhã do dia a seguir. E como passar o tempo? Como fazer, para os minutos não parecerem horas? Sempre foi assim toda alterada.
E o que queria, queria já... Não valia a pena, Lara era impaciente por nascimento. Uffff… De frente a esse armário abarrotado de roupa e calçado era sempre a mesma lengalenga, o que ía vestir?
- Este vestido? Na… na…. Não tenho sapatos de jeito. Assim, com cada peça que me vem à cabeça, nunca nada combina com nada. Larinha, Larinha! Esquece! Improvisa sobre a marcha! Mulher que já tens 35… - Disse para si.
- 35, 35 anos Meu Deus!- Já tinha 35 anos e nem se lembrava de como o tempo tinha passado.
Deu-lhe para naquele mesmo momento reparar no espelho do armário.
- Ei lá! Quanta branca! E tu preocupada com a roupa! O tempo não pára! E o que ele voa acaba de se reparar no meu cabelo. Sempre tive cabelo comprido e sempre tive muito cuidado com ele, e para que é que me vou enganar? Sempre fui assim um bocadinho vaidosa! - Exclamou para si mesma. Mas agora, frente àquele espelho ficou realmente chocada, é como se tivesse voltado aos 16 anos por momentos, desde que encontrou a fotografia até que o encontrou no supermercado.
- Não pah, não te atormentes rapariga, o tempo passou para ambos! - Disse. - E até para já ele disse que eu não tinha mudado nada! E pode ser que não porque ele reconheceu-me de imediato... Então porquê estas ideias tão malucas à minha cabeça? Realmente! Ele sim estava guapíssimo! Como diria a minha avó que era espanhola. Mas guapíssimo de verdade! Pronto estava um gato mesmo, meu Deus! E deixou crescer a barba e fica-lhe tão bem! Essa barba espartana de dias. - Continuava a falar consigo mesma para acalmar os nervos que teimavam em não a deixar.
Lara pensou como a barba lhe dava um ar assim tão charmoso que o tornava mesmo muito atraente. Ele ganhou com os anos. Sim, e agora como seria a sua vida? Estaria casado e teria filhos? Será que vivia aqui na cidade? Duvidava, nunca o tinha visto depois de anos, era mesmo uma casualidade encontrar a fotografia e encontrá-lo em poucas horas. Ela também queria saber dele. Queria saber tudo, sentia tanta curiosidade. E porquê? Porque é que a vida os tinha separado? Talvez lhe exigissem muito em casa. Tristão era filho único e vinha de uma família humilde, de uma pacata aldeia. Os pais vieram à cidade em busca de um futuro para o filho como é lógico, uns estudos. Sim era isso que a família queria para ele: que ele fosse médico, advogado, sabia lá! Lara lembrava-se de que ele aspirava alto, era muito inteligente e chegaria longe, disso ela nunca tivera dúvidas. Pronto, talvez ele até tivesse tirado o seu curso no estrangeiro ou vá-se lá saber onde. Ou se calhar nem sequer estudou... Se calhar até teve de emigrar e foi ao estrangeiro para trabalhar. Raios! Tantas perguntas ocupavam a sua cabeça. Se continuasse assim até amanhã, ficaria com enxaqueca de certeza!
- Por amor de Deus que passe já o tempo! - Exclamou ansiosa. Como era óbvio a noite foi assim passada entre valerianas e vagos intentos de ler, mas parece que tudo era impossível mesmo. Apesar do cansaço lá conseguiu dormir qualquer coisa, mas nada de jeito tanto é que ficou assustada ao ver o seu rosto no espelho ao acordar. Santo Deus que olheiras! Lá teve de ser e teve de se levantar. Tratou das coisas rotineiras e lá conseguiu queimar a manhã e de que maneira. Para começar e para não variar teve de cuidar da sua sobrinha, e logo nesse dia em que não estava com paciência para aturar ninguém. Só queria o Tristão...
- Hoje não é um bom dia mana, para ficar com a menina. Digo-te a verdade.
- Estás francamente rara. - Respondeu a irmã.
-  Ok. Não é nada trás a menina e ponto.
Ficou com a sobrinha e acabou por agradecer porque o tempo demorou menos a passar.
 E finalmente chegou a hora de se vestir, para ir ao encontro de Tristão. Um duche assim rápido, o cabelo solto, uma base de maquilhagem e um creme para as olheiras, uma vez que estava realmente de rastos com aquela noite de insónia. Enfiou umas calças jeans e uma túnica às flores... Umas botas tipo do oeste por cima das calças e estava pronta...
- Sempre acabo por fazer o mesmo! Não adianta, o que eu gosto mesmo é de sentir-me cómoda com o que visto para quê complicar? - Pensou Lara enquanto se preparava. Com o passar dos anos, parece que neste aspecto tinha aprendido a descomplicar com estes temas da roupa e tal. À medida que se aproximava a hora do encontro Lara sentia assim uma necessidade tão grande de abraçá-lo, de se fundir a ele num abraço bem apertado. Agora que recordava, tinha sonhado com isso a noite anterior, o pouco que dormiu sonhou com ele. O seu coração batia bem acelerado, chegou ao café onde passaram momentos da sua juventude, onde se sentavam no lugar de sempre e a mesa era testemunha do brincar das suas mãos e, sim até que lá chegou passaram-lhe pela cabeça mil... Uiii mil! Muitos mais reflexos da história que tinham partilhado desde os 16 anos. Caminhava assim à pressa e mesmo que pareça mentira apesar de ser assim muito acelerada, chegava sempre tarde. Tanto é que ele já tinha enviado uma mensagem dizendo: Onde estás Lara? E quando ia a responder, levantou o olhar e retirou os seus óculos de sol: uns óculos Ray Ban velhos que deviam ter uns 10 anos, mas eram os clássicos que com o passar do tempo nunca saiam de moda. Lá estava ele encostado à esquina do café com a perna cruzada e o telemóvel na mão.
- Tristão...- Disse. Lara queria ter gritado, mas não lhe saiu e voltou a dizer - Tristão!
E nos poucos passos que os separavam Lara correu para ele com os braços abertos. E sim enlaçaram-se num abraço, e embora Lara quisesse negar que estava emocionada não se conseguiu conter e chorou de emoção. Não era nada do outro mundo pois Lara era assim tremendamente emocional. Quer dizer, desde que se conhecia que chorava por tudo e por nada. Mas aquelas lágrimas eram de alegria. Tristão também estava emocionado. Calmamente sugeriu que em vez de irem tomar um café ou uma cerveja, talvez fosse melhor irem dar uma voltinha.
- Tenho ali o carro, vamos?
- Sim, claro. Vamos.
Deram umas voltas pela cidade e foram parar a um parque a uns quilómetros da cidade e sem saberem como perderam-se num apaixonado beijo. O que lhe ocorreu dizer depois de se beijarem foi:
- Beijos... Beijos não... Por favor – Mas não conseguia proferir as palavras.
- Estás linda Lara, muito mais linda do que na escola, estás preciosa! - Foi o que ele respondeu naquela loucura de beijos.
- Beijos... Beijos não... Beijos não... – Continuava a dizer para si sabendo que não ia conseguir parar por ali.
Para Lara perder-se no seu olhar, em suas mãos e nos seus braços era a única coisa em que conseguia pensar e queria fazer. Ela que tinha tantas perguntas, mas, de repente, esqueceu-se tudo. Só voltou à realidade quando ele sem querer deixou cair a carteira e deu para ver a fotografia de uma espetacular mulher loira de olhos azuis e por toda a pinta não era portuguesa... E é. Claro que em Portugal há loiras lindíssimas, mas aquela era, devia ser sueca ou norueguesa ou sei lá...
- Quem é ela?
- É a minha esposa... Mas pronto... É assim uma longa história...
Lara disse que tinham todo o tempo do mundo e sorriu de seguida, Tristão propôs que fossem até à praia. Que se sentassem na areia conversando um pouco, e Lara concordou com a ideia. O encontro não podia estar a correr melhor. A praia era um dos seus lugares de eleição e por escassos segundos voltou novamente ao passado: às tardes que passavam juntos e sozinhos na praia a apanhar banhos-de-sol, a rir e a conversar. De repente, sentiu umas saudades enormes desses tempos e pensou que, afinal de contas, estava ali para tentar recuperá-los, para recuperar o que ambos tinham deixado para trás.
 Lado a lado, com os dedos quase a tocarem-se, percorreram a marginal e de seguida, descalçaram-se e desceram até ao areal. A atmosfera que se fazia sentir no ar era contraditória: por um lado não sabiam o que haviam de dizer um ao outro, como quebrar o silêncio... Lara sentiu que de certa forma pareciam estar em sintonia e havia um sentimento comum entre os dois: ambos queriam o mesmo e gostavam um do outro; mas por outro lado, havia um misto de sentimentos e emoções no interior de cada um que não estavam a conseguir controlar e muito menos gerir. Sentimentos que eram muito mais fortes que eles. Havia a impulsividade a chamar o coração à razão, havia o forte desejo que os consumia por dentro e havia um querer muito maior que a passividade que se fazia sentir entre ambos.
– Quando venho à praia, lembro-me sempre de ti, sabias? – Disse ele, olhando-a profundamente nos olhos e encurtando a distância que os separava.
– A sério? – Lara mostrou-se tímida e bastante corada – Fico tão contente por ouvir isso.
– Na verdade, nunca te esqueci… Os nossos caminhos descruzaram-se depois de terminarmos o secundário: tu foste para a faculdade e eu mudei-me para Londres, consegui ganhar uma bolsa de estudo e fiz lá o curso de Medicina. Terminei recentemente a especialidade em Pediatria.
– Que bom! Não fazia ideia que gostavas de crianças. – Disse ela incrédula.
– Apesar de não ter irmãos, sempre gostei muito de crianças e quando decidi ir para Medicina, decidi logo de antemão seguir a especialidade de Pediatria. – Sorriram um para o outro.
-Muita coisa mudou na minha vida, desde que fui para Londres…
– Foi… lá que conheceste a tua esposa? – Perguntou ela a medo.
– Sim! A Hallie trabalha no hospital onde estagiei e onde trabalhei durante quase dois anos, apaixonamo-nos durante o meu estágio. Namoramos durante três anos e depois decidimos casar e regressar a Portugal.
Lara notou alguma falta de entusiasmo em Tristão, uma melancolia no olhar.
– Não me pareces muito feliz ou estou errada?
– Mais ou menos! Sabes, este nosso reencontro fez-me pensar muito, de certa forma veio por em causa muito daquilo que eu sinto pela Hallie. Tem-me feito questionar se as opções que eu tomei foram a mais corretas, levantou sérias dúvidas sobre aquilo que eu sinto por ela.
– Desculpa! Não queria prejudicar-te, nem ser a causadora dessas dúvidas.
– Não peças desculpa. Tu não tens culpa de nada.
– Tu ama-la?
– Apaixonadamente para dizer a verdade. Pensava eu, ao menos... Já estávamos a fazer planos para aumentar a família; mas depois apareceste tu e tudo parece ter mudado dentro de mim. Já não sei se é isto que quero, já não sei se amo realmente a Hallie. Já não sei nada, estou tão confuso. Não era suposto sentir-me assim, tenho trinta e cinco anos, sou um adulto e estas dúvidas existenciais não fazem sentido. Não quero de maneira nenhuma magoar a Hallie; no entanto, sei e sinto que é realmente de ti que eu gosto, que é a ti que eu amo, desde sempre.
Lara sentiu-se envergonhada.
– Tive muita pena de ter perdido o contacto contigo, de ter deixado de saber notícias tuas. Foste e continuas a ser uma pessoa muito especial para mim, que me marcou muito.
– Também tu. Sabes, ter-me afastado de ti e não me ter decidido a procurar-te depois de terminar o curso é uma das coisas de que mais me arrependo. Talvez tudo tivesse sido diferente.
– Quem sabe…
Tristão pousou a sua mão por cima da dela e os seus olhares fundiram-se num instante, os corações de ambos aceleraram-se, os rostos aproximaram-se lentamente, como o balançar de uma borboleta. Já não era mais possível, resistirem ao que sentiam um pelo outro, os lábios acabaram mesmo por tocar-se, as línguas de ambos misturaram-se e trocaram mais um beijo sôfrego e apaixonado.
Sorriram um para o outro e Tristão empurrou-a levemente em direcção ao areal continuando a beijá-la profundamente nos lábios. Lara começou a desabotoar a camisa que Tristão levava vestida, enquanto ele continuava a beijá-la: agora no pescoço: mordiscando-lhe o lóbulo da orelha e passando de seguida para o peito. Estavam completamente fundidos um no outro... Tristão despiu de seguida a camisa, deixando à vista o corpo moreno e atlético que deixou Lara quase sem fôlego, começou a desapertar as calças dela à medida que ela percorria lentamente o seu tronco, beijando-o docemente e sentindo a humidade afrodisíaca da sua pele. Tristão ajudou-a a despir a túnica, e Lara ficou apenas em roupa interior sentido a excitação do toque dos grãos de areia em contacto com a sua pele.
O prazer estava no auge e a exploração corporal acompanhava-o exponencialmente; mas de repente, Tristão caiu na realidade e afastou-se de Lara.
– O que se passa? Fiz algo que não devia?
– Não! Isto é que não devia ter acontecido…
– Mas porquê? Disseste que me amavas, que eu era a pessoa que mais gostavas.
– E isso é verdade! Mas eu não me posso envolver contigo, as coisas mudaram.
– Não é justo o que me estás a fazer: teres-me dado esperanças, envolvermo-nos e agora dares tudo por terminado.
– Tenta compreender, Lara! Sou casado, não posso magoar a Hallie assim desta maneira, ela não merece. Não é justo. Por muito que te ame, que goste de ti, que deseje ficar ao teu lado para sempre, não posso fazê-lo. Desculpa. Não devia ter feito isto, não devia ter cedido aos impulsos.
– Estás arrependido de tudo?
– Por um lado sim; mas por outro lado não. Não sei o que pensar. O que é que vou dizer à Hallie?
– Nada! Fica só um segredo nosso…
– Lara não posso fazer-lhe isso! Não lhe posso esconder uma coisa destas, já não somos nenhuns adolescentes.
– Então o que pensas fazer?
– Não sei!
Tristão pegou na camisa e começou a vestir-se.
– Vais-te embora assim, sem mais nem menos?
– Desculpa! Perdoa-me. Preciso de estar sozinho para pensar no que fazer.
– Prometo que te ligo, quando tiver uma decisão tomada.
– Está bem! Tristão?
– Sim?
– Por favor, nunca te esqueças de mim…
– Jamais te esquecerei, Lara. Prometo. Porque o que o coração acabou por juntar, o tempo não pode separar.
O tempo foi passando e o rosto de Lara ia envelhecendo pela tristeza e pela falta de notícias de Tristão. O seu coração desistia a cada dia que passava sem um telefonema. Uma mensagem bastava, apenas uma mensagem seria suficiente para lhe confortar o coração, para lhe pintar a alma de verde, para simplesmente ainda poder acreditar que o amor, “o primeiro amor nunca se esquece.”
Num dos seus passeios ao fim de tarde, Lara viajava sobre um misto de pensamentos negativos, mais do que em qualquer outra situação da vida dela. Era a segunda vez que perdia Tristão. Era a segunda vez que ele desistia daquele amor.
- Lara… Sabia que podia encontrar-te aqui.
Ao virar o seu rosto, o olhar de ambos se cruzou e denunciou a paixão ardente que se fazia sair dos corações de ambos. As chamas quentes e fervorosas daquele amor que se iniciara à cerca de vinte anos atrás.
- Tristão…
E perderam-se em largos minutos nos braços um do outro.
- Desculpa esta minha ausência, mas tive de tratar de umas coisas antes que fosse tarde. Vem comigo. Vou contar-te tudo.
O caminho foi longo e custou a ser percorrido. A cada passo que era dado notava-se a ânsia no rosto de Lara. Tristão seguia calmo como sempre, uma característica típica do seu próprio ser. Lara também era uma pessoa calma, mas deixava-se dominar pela ansiedade nos momentos em que o seu querer era mais importante que todos os valores do mundo.
            Dirigiram-se para os portões que davam acesso a casa de Tristão. A rua estava iluminada pela luz da lua e pelo sorriso das estrelas. No momento em que a porta se abriu, Lara ficou admirada com o que viu. No corredor, velas vermelhas e brancas iluminavam a passagem de rosas que tornava o ambiente um tanto ou quanto romântico. A cada passo que davam Tristão revelava-se ser carinhoso e vivia de um romantismo que Lara desconhecia. Apresentou-lhe um belo prato, confeccionado por ele que o denunciava ser também um cozinheiro nato.
            - Desconhecia este teu lado, Tristão.
            - Há tanto de mim que tu não conheces, Lara.
            - Terás uma vida para me mostrares, se assim desejares. Mas antes conta-me desta tua ausência.
            Tristão ficou em silêncio por escassos segundos. A música ambiente, cantada pela voz da incrível Whitney Houston, respondeu por ele: “And I, will always love you”. Tristão sorriu pela ironia do acontecimento e Lara acabou por aperceber-se do sucedido e sorriu também.
            As palavras não lhe saiam da boca o que obrigou Lara a desistir de tentar perceber o porquê de uma ausência tão misteriosa. O jantar terminou com uns crepes de chocolate, que por ironia era a sobremesa favorita de ambos. Foi um jantar para tudo. Os temas de conversa variaram desde a política, ao desporto, desde a música ao teatro, relembrando os momentos do liceu em que ambos interpretaram uma peça de uma das maiores histórias de amor, vivida por “Tristão e Isolda”, e não se voltou a tocar no assunto inicial que tanto tinha incomodado Lara. Aquele momento acabou com um bom copo de vinho junto da lareira que estava acesa. No meio das lembranças, os olhares voltaram a fixar-se, os corações abraçaram-se e Tristão ganhou coragem para beijar Lara.
            - Vais voltar a fugir e a dizer que isto não pode acontecer? – Perguntou Lara, afastando-se dele exigindo-lhe uma resposta. – Se o vais fazer é melhor ficarmos por aqui.
            - Lara, querida… Vou contar-te o motivo da minha ausência. Há uns anos atrás vivi uma das maiores histórias de amor que podia ter vivido. Sabes que partilho daquela opinião que o primeiro amor nunca se esquece. Quando saí daqui não soube mais desse amor e senti-me capaz de seguir em frente, casando, refazendo a minha vida, mesmo que esse amor nunca deixasse de ser parte integrante do meu ser. Há dias reencontrei-te. Foi aí que percebi que todas aquelas noites de sonhos contigo, que me obrigaram de certo modo a vir cá, não foram em vão. Tudo acontece quando tem de acontecer e tu és o melhor acontecimento da minha vida.
            Lara estava de lágrimas no rosto deixando-se reconquistar pelas palavras dóceis e singelas de Tristão, acabando por retribuir-lhe o beijo que afastara há momentos atrás.
            - Ainda não terminei… Aquele momento na praia mexeu comigo. Mas não é de minha índole ser infiel aos meus compromissos e tinha de partir para me conseguir reencontrar. Estava mesmo desorientado e, a cada segundo que estava contigo, a vontade de permanecer ao teu lado era cada vez maior que estava a deixar-me completamente louco.
            - Shiuuu. Não digas mais nada.
            Lara beijou Tristão num beijo que o deixou sem fôlego, mas Tristão queria poder dizer-lhe o que lhe ia na alma acabando por afastá-la de novo e concluiu:
            - Tudo isto para te dizer que quero ficar contigo e que tu és e sempre serás o meu primeiro grande amor.
            E entregaram-se de corpo e alma numa noite longa de amor, de entrega e de reconciliação.
Na manhã seguinte Lara acordou com o cheiro de bacon frito. Não tinha noção de quão esfomeada estava até sentir o cheiro que vinha da cozinha. Embora tivesse tido um excelente jantar, sentia-se desprovida de energia já que tinha perdido a conta das vezes em que atingiu o clímax nos braços de Tristão. Tentou a todo custo levantar-se, mas faltaram-lhe as forças. Deixou-se cair novamente na cama e suavemente chamou por Tristão. Provavelmente não a ouviu uma vez que ele continuava a assobiar alegremente na cozinha. Deixou-se estar. Enrolou-se nos lençóis e cheirou-os. Sorriu que nem uma menina apaixonada e aninhou-se ainda mais fundo dentro da cama. Deitou-se com a barriga para baixo e abriu os braços... Queria abraçar a imensidão da cama de Tristão e encher-se do seu cheiro. As memórias da noite anterior invadiram-na e sentiu o desejo a regressar. Contorceu-se com as dores que sentia cada vez que a sua vagina latejava.
Já se tinha esquecido de como era fazer amor. Desde aquela primeira vez na praia com Tristão, há precisamente dezanove anos, ela nunca mais se entregara a ninguém. Não que tivesse feito alguma promessa mas nunca tinha encontrado alguém que a fizesse sentir desejo. Nunca se apaixonou por ninguém e incrivelmente nunca mais tinha beijado ninguém. Agora que pensava nisso é que se apercebia que só tinha pertencido ao Tristão, desde sempre, fora só dele, sempre. Como é possível? Porque é que nunca se apaixonou por ninguém antes? Tantos colegas de escola, da universidade e até do trabalho tentaram aproximar-se dela ao longo dos anos, mas nenhum lhe despertava interesse. Ou eram muito gordos, ou eram muito magros, ou muito altos, ou muito baixos, ou falavam pouco, ou falavam muito... Apercebeu-se agora que o único denominador comum entre eles é que nenhum deles era o Tristão.
Ao fundo continuava a ouvi-lo assobiar. Começava a imaginar o que será que ele estava a magicar, que pequeno-almoço seria esse que nunca mais acabava de ser preparado. Decidiu juntar as últimas forças que lhe restavam para se arrastar até à casa de banho. Um duche rápido ia fazer-lhe bem e aliviar-lhe a tensão que sentia entre as pernas. Uma dor que conseguia ser agradável e desagradável ao mesmo tempo...
            Sorriu timidamente a lembrar-se o motivo da dor: Tristão... Lembrou-se da delicadeza com que fez amor com ela depois de ela ter-lhe dito que já fazia algum tempo desde que tinha estado com alguém. Não lhe quis dizer que nunca tinha estado com mais ninguém sem ser ele. Na altura não pareceu apropriado, sentiu até medo de não ser capaz de satisfazê-lo. Mas parece que para fazer amor a única arte necessária é amar. Na primeira vez ele guiou-a do mesmo jeito que há 19 anos, mas depois... Depois parece que foi possuída pela deusa da luxúria porque tomou o controlo. Quis retribuir o prazer que ele lhe tinha proporcionado e parece que o conseguiu fazer. Cada vez que o fazia gemer de prazer memorizava o que o tinha feito chegar a esse ponto e repetia com mais destreza. Clareou as ideias, tomou um duche rápido e vestiu a camisa que ele tinha usado no dia anterior. Foi ter com ele à cozinha deixando-se guiar pelo cheiro.
- Olha quem decidiu juntar-se à festa!
- Estive tentada a esperar que fosses ter comigo. Mal me conseguia levantar da cama...
- Pudera... Com a fome com que me atacaste ontem ficaste sem energias.
Sorriu para ela e largou o que estava a fazer para abraçá-la. Beijou-a de leve na boca e apertou-a contra si até fazê-la gemer.
- Não pares...
- Calma princesa. Vamos comer primeiro. Estou derrotado.
- Tu derrotado? O valente Tristão derrotado. Quero ver se me dizes a verdade...
Sorriu para ele, deixou-se cair de joelhos e pegou-lhe o sexo pelas mãos. Baixou-lhe os boxers e abocanhou-o sem aviso. O gemido que ele fez indicou-lhe que estava no bom caminho. Continuou os movimentos rítmicos guiando-se pelos gemidos de Tristão. Ele perdeu o controlo e ela sentiu um líquido suave e morno a descer-lhe pela garganta. Aceitou e saboreou. Lambeu os lábios enquanto se erguia.
- Desculpa. Não me consegui controlar...
- És um mentiroso!
- Eu? Porquê?
- Não estavas derrotado!
E riram-se com a cumplicidade de um casal que já se conhece há mil vidas. Saborearam o pequeno-almoço “inglês” que ele preparou e enfiaram-se na cama o dia todo a fazer amor. “Que a vida fosse sempre assim, pensou ela”. Mas bem no íntimo sabia que eles ainda tinham muito para conversar. Como fazer daqui para frente? E a Hallie? Será que ele tinha resolvido tudo com ela? Havia muito para falar e para se decidir. Não podiam passar a vida toda na marmeladaa, mas por agora bastava. “Amanhã é outro dia” pensou enquanto se enfiava dentro dos lençóis para iniciar mais um ataque amoroso...
            A manhã chegou calma e serena, os raios de sol entraram sem pedir licença pela grande janela do escritório, iluminando o rosto de Lara. Completamente atordoada e confusa, acordou na sua poltrona colorida, com os álbuns de fotografias ao seu lado, e a foto do seu eterno amor junto do seu peito.
            - Já cheguei. – Grita ele do hall de entrada.
            Assustada, levanta-se de imediato e corre em direcção a ele, abraçando-o de seguida.
            - Que se passa Lara? – Pergunta ele admirado.
            - Nada... Nada... – Suspira a Lara, ainda nervosa. – Apenas um sonho, foi apenas isso, Tristão!
            - Adormeceste outra vez na poltrona? – Pergunta ele com ar brincalhão.
            - Sim... – Respondeu ela pensativa. – Já alguma vez imaginaste como teria sido se tivesses ido para Londres estudar?
            - Como assim? – Perguntou Tristão confuso.
            - Como teriam sido diferentes as nossas vidas? Se calhar agora não estaríamos juntos, sei lá... – Disse ela, tentando explicar o susto que tinha apanhado enquanto adormeceu na poltrona.
            - Hum... – Suspirou. – Talvez, mas ficarmos juntos foi a minha primeira decisão, e não me arrependo de a ter tomado, Lara.
            - Eu sei... – Respondeu ela sorridente.
            - Sabes que te amo, por isso, nada poderia ser diferente! – Disse ele dando-lhe um beijo suave nos lábios. – Amo-te desde a primeira vez que os meus olhos se cruzaram com os teus...
            - Tristão, meu menino rebelde, que fazias tu na biblioteca quando nos conhecemos? – Pergunta ela em forma de brincadeira, enquanto colocava a mesa.
            - Então, estava à procura da mulher da minha vida! – Respondeu ele de imediato com uma gargalhada no final.
             Assim, após um pequeno-almoço bem reforçado, e de algumas brincadeiras, Lara volta ao seu escritório onde constatara que afinal o amor não cabe dentro de gavetas, e muito menos em devaneios. Amor, é aquilo que se vive todos os dias, é aquilo que se constrói, e isso cabe apenas dentro do coração. E, esse palpitava desde os 16 anos, desde o momento em que na sua inocência tirou o livro da prateleira e nunca mais esqueceu o rosto que lhe apareceu naquele espaço vazio: Tristão, o menino rebelde, o homem dedicado.
Se as coisas poderiam ter sido diferentes? Claro, mas amar veio em primeiro lugar.
Pegou no marido pelas mãos e arrastou-o para a poltrona. Afinal, não conseguia pensar em melhor lugar para começar a tentativa de aumentar a família e preencher aquele pedaço que lhe estava a faltar…        



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