segunda-feira, 7 de maio de 2018

Vida

Deborah, poisou as mãos cansadas sobre o seu ventre. Os dedos, hirtos e magros, entrelaçados e impacientes.
Endireitou o corpo, na cadeira, preparando-se para receber as notícias. A médica analisava o resultado dos exames parecendo esquecer que ela estava ali, à espera...
As sobrancelhas fraziam, os lábios cerravam-se, os olhos questionavam-se... Deborah, tentava ler a expressão da médica como que tentando antever o resultado final.
Por fim, o silêncio quebrou-se com as temidas palavras: "infelizmente, é o que nós esperavamos".
Deborah, olhou para a médica, com lágrimas já vertendo nos olhos, e pediu clemência. Que fizesse a análise outra vez. Não podia ser... Ainda não estava preparada! Não podia ser.
A médica segurou-lhe nas mãos e pediu-lhe calma. Calma! Como se fosse possível ter calma perante uma notícia destas!
Quantos dias, semanas ou meses restavam? Ainda tinha tanto para fazer! Ainda era tão nova! Não podia ser!
O telefone tocou. Deborah, respirou fundo, e atendeu o telefone. Está tudo bem, claro que está tudo bem. Como poderia não estar. Descansou a filha com palavras de conforto, nas quais não acreditava, para não a preocupar. 
Saiu do consultório e decidiu andar a pé para casa. Nunca tinha reparado que o céu podia ser tão azul. As árvores vestiam um verde carregado e cheio de vida. Parou no jardim que ficava em frente a casa. Tinha perdido a coragem de entrar. Deixou-se estar, observando a vida que brotava à sua volta. Crianças a correr e a brincar. Mães em conversa corriqueira. Os passáros voando de árvore em árvore... 
Tanta vida à sua volta, e a sua vida prestes a terminar...


Adelaide Miranda, 07/05/2018

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