quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma mulher inteligente

Atirei o telemóvel para o chão! Despadaçou-se em mil pedaços. Não quis saber! Não me importa! Que se dane o telemóvel e tudo o resto!
Sempre a mesma conversa. Parecia uma gravação. Sempre o mesmo diálogo, que mais parecia um monólogo, com respostas breves de sim e não, ou uhmmm.
Cansei! Farta!
Era uma afronta à minha própria inteligência! Sempre pensei ser inteligente, mas comecei a ter as minhas sérias dúvidas.
Uma mulher inteligente não se deixa enganar com desculpas esfarrapadas e falinhas mansas, pois não?
Uma mulher inteligente não se deixa levar com um simples beijo e um abraço mais apertado, pois não?
Que se dane! Que se dane!
Levei as mãos à cabeça e puxei os cabelos! O cenário de destruição... E agora? E agora se ele decidisse ligar? Oh, não!
Agachei-me desesperada à procura do cartão do telemóvel. Salvei-o entre os pedaços desorganizados no chão.
Ajeitei o cabelo e passei o baton nos lábios. Cheguei à loja com um sorriso, e pedi um telemóvel desbloqueado. Daqueles baratinhos, não fazia mal.
Sentei-me no banco do jardim e coloquei o cartão... Liguei o telefone e rápidamente configurei-o. A tão esperada chamada chegou:
- Então, Deborah, o que se passou? Tentei falar contigo várias vezes. Não consegui sair mais cedo, mas como te disse, devo estar em casa por volta das dez. Ontem, nem consegui voltar para casa de tão estafado que estava.
Anui, com a cabeça e engoli em seco. Contente por ouvir aquela voz e, ao mesmo tempo, zangada comigo mesma.
- Eu entendo, Renato. Muito trabalho, certo? Não faz mal.
- Deborah...
- Sim?
- Eu amo-te, sabes disso, certo?
- Oh sim, claro. Eu também amo-te muito.
- Até logo... Beijinhos.
Desliguei o telefone, derrotada. Afinal, ele disse que me amava. Eu até sou uma mulher inteligente, e uma mulher inteligente não cai em falinhas mansas. Pois não?

Adelaide Miranda, 03/05/2018



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